sábado, 27 de novembro de 2010

Retrato em branco e preto de Pedro Miranda

A pimenteira de Pedro
Li, certa vez, sobre um disco de uma cantora chamada Teresa Cristina apenas com composições de Paulinho da Viola. Meses depois aconteceu um show de Eduardo Gudin no Sesc-Vila Mariana em que Paulinho participava. Depois do show, alguns deles foram jantar no restaurante Walter Mancini, que fica na rua Avanhandava, em São Paulo. Convidado, lá fui eu. Sentei quase na frente de Paulinho. Num certo momento perguntei sobre o CD lançado pela Deck Discos. Ele, bom de conversa, sempre bem humorado, levantou as sombrancelhas, fez aquela pausa de “bem, o que vou falar?” e deu a entender que não tinha gostado com o olhar direcionado a uma moça bonita que estava sentada umas três ou quatro cadeiras à minha esquerda. Ela arregalou os olhos, guardando silêncio. Era a Teresa Cristina. Bem, aí foram só gargalhadas. Paulinho derramou-se em elogios. Como uma coisa leva a outra, quando assisti ao dvd que Teresa lançou com o grupo Semente – O Mundo É Meu Lugar – chamou-me a atenção a performance de uma cara que fazia um solo de pandeiro e cantava. Mas nem me dei ao trabalho de saber seu nome.

No começo de 2010, alertado por algumas referências elogiosas, inclusive a de Caetano Veloso, fui atrás de um disco de um certo Pedro Miranda. Chamava-se Pimenteira. Estava completado o círculo. Era ele o percussionista do show de Teresa Cristina.

É o samba negro? E o blues? A música é generosa, universal. Os universos se “entrelaçam” e resultam em belos “estranhamentos. A absorção da cultura africana por Pablo Picasso, a reinterpretação da linguagem do blues de Jimmy Page e Robert Plant na composição Since I’ve Been Lovin’ You, as gravações de Eric Clapton das composições de Robert Johnson, o samba “italiano” de Adoniran Barbosa, o jeitão “Brás” de Miriam Batucada, tudo faz parte dessa “estranha beleza”. Cada cultura traz um dado novo. Errou aquele jornalista da revista IstoÉ que, quando foi lançado o disco Insights, da Toshiko Akiyoshi–Lew Tabackin Big Band, em 1978, em sua imensa ignorância, querendo ser engraçadinho, disse que japoneses não deveriam fazer jazz – era uma coisa mais ou menos assim. O desinformado e preconceituoso jornalista nem devia conhecer o jazz, senão saberia que a bigband de Akiyoshi e do saxofonista e flautista Tabackin era considerada, disparado, a melhor, premiada por revistas especializadas de jazz e pela ‘Stero Review’. Desconhecia também que Akiyoshi tinha sido considerada a melhor arranjadora por cinco vezes e duas vezes como compositora e Insight tinha ficado em primeiro lugar nos melhores do ano pela revista Downbeat. Por isso, o samba pode ser negro e até javanês, diria Lima Barreto.

Pode ser um pouco moda se dizer das intertextualidades, mas é interessante esse cruzamento de informações e culturas. Numa matéria publicada em O Estado de S. Paulo, em dezembro de 2009, Pedro diz que em sua juventude ouvia só rock brasileiro e reggae. Paulinho da Viola, Cartola, ouvia se alguém estivesse ouvindo e ele estivesse por perto. A “revelação” acontece a partir do momento em que descobre que o samba era parte dele. Pedro vai tocar pandeiro e, certamente seu gosto pela batida pesada e “malemolente” do reggae estará incorporado. Do mesmo modo, seu jeito de interpretar o samba estará permeado pelas formas musicais de que gostava. Não é só por ser branco que seu samba terá uma “cara”.

A revitalização da Lapa carioca resultou em uma transformação de vários gêneros musicais brasileiros, principalmente, do samba e do choro. Teresa Cristina, assim como alguns que despontaram atuando nos bares da Lapa, estão renovando a música brasileira. São jovens e talentosos.

Além de Pedro Miranda, tem Marcos Sacramento, que fez o memorável Memorável Samba, álbum de 2004, que é um conjunto de pérolas do samba para nenhum “Moreira da Silva botar defeito“. Tem algo em comum entre os dois. Ambos têm vozes com registro um pouco mais agudo, diferente do de muitos sambistas negros. São vozes de brancos, assim como diferenciaríamos as vozes “negras” de Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald das “brancas” de Anita O’Day e June Christy. Eles são bons na escolha do repertório. São músicas de letras espirituosas tão características do samba “malandro”. No caso de Miranda, a mão de Cristina Buarque na pesquisa do repertório é evidente – o cantor credita a ela e a Paulão 7 Cordas nos agradecimentos.

Em 2002, com produção de Hermínio Bello de Carvalho, foi lançado o cd duplo O Samba É Minha Nobreza. Participavam dele Teresa Cristina, Paulão 7 Cordas, diretor musical do espetáculo e Cristina Buarque, que, sem muito aparecer, está em todas e é uma das responsáveis pelas “redescobertas” preciosas. Outro que participou deste projeto foi Pedro Miranda, cantando em várias faixas. Não é mero acaso que, nesse seu segundo disco solo, apresente tanta consistência,

O destaque em ‘Pimenteira’ são os arranjos, na maioria do violonista Luís Felipe de Lima. Ótimos, além da cozinha costumeira das cordas e das percussões, os sopros são o diferencial. As intervenções das flautas, dos trombones , dos clarones – prestem atenção no arranjo de Caso Encerrado – e dos saxofones são perfeitas. Em Meio-Tom tem até um órgão Hammond tocado por Itamar Assiere e um vocal fenomenal do Anjos da Lua. Outro “corpo estranho” é a inclusão do violino do franco-carioca Nicolas Krassik.

Se Pimenteira fosse apenas isso, já estava bom. Tem mais, no entanto. Há um repertório de músicas de compositores da nova geração, como Edu Krieger, Pedro Amorim, Moysés Marques e Maurício Carrilho, seus amigos da Lapa, e composições de consagrados como Nei Lopes, Elton Medeiros e Nelson Cavaquinho. A deste último tem letra de Alcides Lopes e estava inédita em disco. Chama-se Velhice. É um primor da rudeza com a figura feminina, como Mulher de Malandro, de Heitor dos Prazeres, ou Marido da Orgia, de Ciro de Souza. A letra: “Vejo você hoje em dia acabada/ Quem te viu, quem te vê,/ quando eras amada/ Hoje a velhice apoderou-se de você/ Eu não sinto saudade da/ Mocidade nem vivo a sofrer/ Assim diz você/ Assim diz você/ Vá te mirar no espelho e veja/ como estás velha/ Estás no último degrau da vida/ Não vou zombar de você/ Porque também vou pra lá/ Mais tarde a velhice de mim vai se apoderar”. É sempre divertido ouvir essas músicas em tempos tão politicamente corretos.

Veja e ouça Pedro Miranda e Teresa Cristina:



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Thomas Quasthoff, o pequeno notável

Uma certa dose de obsessão acompanha aqueles que ficam à procura de interpretações da mesma peça por vários autores. Tenho isso pela Paixão Segundo São Mateus, as Seis Suites de Cello e o Cravo Bem Temperado (Bach). De Beethoven, por algumas sonatas para piano e as sinfonias e de Schubert, suas últimas sonatas para piano, toda obra de câmara e, principalmente, os lieder. Acontece o mesmo com a obra cantada de Gustav Mahler. São paixões antigas a Canção da Terra (Das lied von der erde), Kindertotenlieder, Rückert-Lieder e Des Knaben Wunderhorn.

Thomas Quasthoff
No início de 2000, vi uma gravação de Des Knaben Wunderhorn com regência de Claudio Abbado. Chamara-me a atenção Anne Sofie von Otter, bela cantora sueca. Para os lieder, sempre gostei do registro dos mezzo-sopranos e Anne era uma das minhas “preferidas do momento”. Não conhecia, porém, o barítono Thomas Quasthoff. Chamara-me a atenção alguém de nome alemão com traços não exatamente arianos. Bela voz. Baixos e barítonos são mais específicos que tenores e menos “populares”. A exceção era Dietrich Fischer-Dieskau, de quem tenho há muito tempo Winterreise, Die Schöne Mullerin e Schwanengesang, de Schubert, acompanhado pelo pianista Gerald Moore.

E agora, na semana passada, fuçando na Miles Discos, em Buenos Aires, no setor dos cantores líricos, encontrei o The Jazz Album: Watch What Happens, de Thomas Quasthoff. Dizem que curiosidade mata. Morro de curiosidade, o que deve ser um pouco diferente. Claro que comprei.

No jazz são poucos os barítonos. Descontando Paul Robeson, que não era exatamente um performer deste gênero, tivemos Billy Eckstine e Johnny Hartman. Não estou incluindo Joe Williams e Jimmy Rushing por razões mais ou menos óbvias. Mais recentemente a pianista e cantora Shirley Horn tinha produzido um CD de Jefferey Smith que, por sinal, tem a voz que lembra a de Quasthoff.

The Jazz Album é uma grata surpresa. Tem voz privilegiada e swing suficiente – vejam o vídeo indicado – para se defender no jazz. A produção é do trumpetista alemão Tll Brönner, que já andou passando por terras brasileiras e gravou um álbum com o nome ‘Rio’, meio bossa nova, meio Chet Baker, fraquinho, mas “ouvível”. Mas escolheu bem os músicos para este álbum: o pianista Alan Broadbent, grande acompanhante e arranjador, Nam Schwartz e a Deutsches Symphonie-Orchester Berlin. O repertório é aquele mesmo, sem surpresas. É uma coleção de standards – a exceção é You and I, de Stevie Wonder – que parece tão familiar como centenas de outros desse gênero. Nesse sentido, é um repertório “fácil”. A questão é a de se produzir um bom disco. Neste The Jazz Album… há um emocionante registro de Smile com bela orquestração da arranjadora Nam Schwartz, interpretação impecável de Hasthoff em My Funny Valentine e em What Are You Doing the Rest of Your Life, de Michel Legrand. Nesta última a mão de Schwartz pesa um pouco no excesso orquestral. O mesmo acontece com a última música do CD – Solitude, de Duke Ellington, mas nada que as estraguem. Note-se a diferença de concepção em Can’t We Be Friends, arranjada por alguém do jazz como Alan Broadbent. No geral, é um disco bem agradável e não tem “modernidades” tolas para atrair o público mais jovem como as dos “garotos” Michael Bublé e Jamie Cullum.

A onda de cantores líricos em se aventurarem por gêneros mais “populares” não é recente. Nem é preciso colocar o trio Pavarotti-Domingos-Carreras e, menos ainda, incluir interpretações de canções napolitanas, que até Enrico Caruso chegou a gravar. Limitando-se a alguns, vamos citar Jessye Norman, Elly Ameling, René Fleming, Kiri Te Kanawa e dizer que poucos não se arriscaram a explorar novos territórios comerciais. Anne Sofie von Otter não foi citada neste grupo por uma razão específica: como Quasthoff, não “empola” a voz. O que é bom e, de algum modo aproxima esses cantores dos normais. Às vezes é um pouco estranho que standards sejam cantados de modo “operístico”. Por questão de hábito, até as árias tiradas de uma ópera de verdade, a Porgy & Bess, de Gershwin, como Summertime, I Loves You, Porgy ou There’s a Boat Dat’s Leavin’ Soon for New York – que é a primeira faixa deste CD de Quasthoff e é uma apresentação de primeira de sua versatilidade e é cantada no “modo jazz” – parecem soar melhor se interpretadas “normalmente”.

Num cantor o que importa é a voz, mas estranhei um pouco o fato de nunca ver seu nome em registros ao vivo de óperas sendo tão bom baixo e barítono. A explicação veio ao “buscá-lo” na Internet: Quasthoff é uma das vítimas da talidomida, que fora receitada a sua mãe durante a gravidez. Tem pouco mais de 1,40 m de altura e seus braços não se desenvolveram normalmente, o que o impediu de ser aluno de piano na infância. Quanto mais ouço Quastoff mais me convenço de que se fosse cantor de jazz, estaria entre os melhores, tranquilamente. É fácil constatar que ele ama o jazz. The Jazz Album demonstra que ele é alguém familiarizado com esse gênero, ao contrário de alguns cantores ou cantoras líricas. Um (mal) exemplo é o álbum Haunted Heart, da mais que competente René Fleming que, mesmo acompanhada pelo pianista de jazz, Fred Hersch, frusta nossas melhores expectativas, principalmente após sua arrepiante interpretação de Summertime, de Gershwin, no Faenor Festival, no País de Gales.

Vejam e ouçam que balanço em Watch What Happens:


My Funny Valentine:



Comparem o modo de cantar Gute Nacht, do ciclo Winterreise, de Franz Schubert:

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Além d’O mundo das maçãs: Vijay Iyer

Na capa, trabalho de Anish Kapoor (Model for Memory)
O nome soa estranho. O que alguém, de pais indianos, pode estar fazendo no jazz. Muita coisa. Do mesmo modo que a japonesa nascida na Mandchúria, Toshiko Akiyoshi, renovou o formato big band nos anos 1970, ou o tcheco Miroslav Vitous, integrante-fundador do Weather Report, uma das bandas que “inventou” o jazz-rock, Iyer é um dos nomes responsáveis pela renovação da linguagem do jazz. Ou alguém imaginaria que um país chamado Quirquistão pudesse exportar um pianista de jazz? Pois o extremamente habilidoso e meio perdido nas facilidades da pirotecnia Eldar Djangirov é de lá.

Ao contrário de Eldar, Vijay Iyer (pronuncia-se “Vijei Aier”) tem mostrado uma evolução sólida e não se tornou vítima de suas habilidades. Tem conseguido produzir bons discos no formato trio e também em parceria com o saxofonista alto Rudresh Mahanthappa, de origem indiana também, italiano de nascimento e residente nos EUA. As raízes indianas, tanto de Rudresh como de Vijay, demonstram o quanto um estilo como o jazz não se esgota. Apresentaram-se no Festival Bridgestone de Música no Rio e em São Paulo há dois anos e deixaram boas impressões. Na votação anual dos melhores do ano, feita por críticos convidados do mundo inteiro, da revista ‘Downbeat’, os dois, coincidentemente, ficaram em primeiro lugar na classificação “Rising Stars” em seus respectivos instrumentos.

A trajetória do pianista é interessante. Fez matemática e física na Yale University e é Ph.D. em física pela Berkeley. Nos encartes e no que fala nos shows e entrevistas, observa-se algo pouco comum no mundo musical: uma atitude “não alienada” quanto à conjuntura mundial. Não é por mero acaso que a capa do último CD seja uma imagem de um trabalho de seu meio conterrâneo, o anglo-indiano Anish Kapoor. Assim, passa uma imagem de contemporaneidade tal como o som que produz. Seu álbum Reimagining, com uma originalíssima (re)interpretação de ‘Imagine’, de John Lennon, e ‘Tragicomic’, lançado pelo selo Sunnyside, além deste último – Historicity –, já pelos títulos, são uma forma de “engajamento” ao tempo em que vive. Não seria gratuito, outrossim, refletir um pouco sobre o que dá misturar água e óleo, ou melhor arte e política. O bom exemplo de sempre é o realismo socialista. Iyer porém, pelo que parece, não tem essa pretensão. É apenas uma forma de estar antenado ao mundo em que vive.

Iyer é um pianista “nervoso”, vigoroso, se usamos uma expressão menos abstrata. Lembra músicos reconhecidos como o “avant-garde” Andrew Hill e em muitas passagens, McCoy Tyner, pianista do universo modal.

O último CD de Vijay, lançado em 2009, pela ACT, foi considerado um dos melhores lançamentos do ano pela revista Jazz Times. Pela Downbeat, o melhor do ano, deixando para trás um figurões como Keith Jarrett e Joe Lovano. É merecido o reconhecimento. O CD representa a evolução dele como compositor e intérprete. Completando o trio estão seus parceiros costumeiros, com Stephan Crump no baixo e Marcus Gilmore na bateria. Além das composições próprias, constam músicas como Somewhere, de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim, Smokestack de Andrew Hill, Dogon A.D., do saxofonista e flautista Julius Hemphill, ex-integrante do World Saxophone Quartet, Mystic Brew, de Ronnie Foster, e também , Big Brother, do músico “pop” Stevie Wonder.

Qualquer música, seja dele ou não, tem sua marca. Até em Somewhere, a única que pode ser considerada um standard. Um pouco cá um pouco lá reconhecemos o tema de Somewhere. As variações que enseja na música são uma demonstração de seu poder de improviso.

Sua antena direciona-se aos temas “pops” de M.I.A. (Mathangi Maya Arulpragasam), cujos pais são de Sri Lanka. Não conheço a original, mas pelo que conheço dessa autora cultuada pela crítica – vejam, tudo é questão de gosto e preferências – Iyer fez milagre, pois é uma das boas faixas do CD. Outros destaques são Helix, composição própria, Dogon e Mystic Brew. Trident: 2010, outra própria, é outra faixa muito boa e lembra muito, com a composição de Ronnie Foster, McCoy Tyner. Desconheço se a música foi inspirada num dos grandes álbuns do excepcional acompanhante ao piano de John Coltrane, Trident, que gravou com o baterista Elvin Jones e o baixista Ron Carter, mas que lembra bem, lembra.

sábado, 18 de setembro de 2010

Magda Tagliaferro, a mulher de cabelos verdes


Há muito tempo atrás fui assistir a um recital de piano, no Teatro Municipal, convencido pelo meu melhor amigo na época do ginásio – hoje, se não me engano, designa-se ensino fundamental –, que estudava no Conservatório do Brooklin, São Paulo, e gostava de música erudita. Nessa época em que mal completara quatorze anos, teimava em convencê-lo a ouvir rock, progressivo, para ser mais exato. Estava naquela fase de descoberta de Led Zeppelin, a banda inglesa Yes e o trio Emerson, Lake & Palmer. Em sua ireedutibilidade intelectual, dizia que aquilo não era música. Independente de achá-lo um tanto pedante – e ele, provavelmente me achando um “brucutu” cultural – credito a ele meus primeiros contatos com a música clássica e o gosto que fui tomando por esse gênero. O contrário não aconteceu. Por mais que tentasse convencê-lo das “qualidades” do rock, continuou com suas preferências.

Os “cabelos verdes” é referência a um filme de Joseph Losey
Pois então, voltando ao recital, meu amigo Domingos Darcie me empurrara para assistir à apresentação de Magda Tagliaferro – ou Magdalena para muitos. Sem ter me dado conta à época, fui um privilegiado ao ter a oportunidade de vê-la ao piano, em idade avançada, que seja dito. O destino faz coisa: fui um afortunado. Chegamos ao Municipal e sentamos onde nossas míseras mesadas permitiam. Naquele dia os deuses foram bondosos com a gente: ficamos no balcão superior, no lado esquerdo do palco, bem em cima do piano. Entrou uma senhora de vestido verde e, bem, não tinha os cabelos verdes como o título sugere. Seus cabelos cor de fogo em majestoso penteado e indumentária verde resultavam num conjunto, no mínimo, inusitado.

Sentados na primeira fileira, apoiados com os braços no peitoril, tínhamos uma visão privilegiada de Magda e o piano. Nossa visão era a do basto penteado e suas mãos percorrendo as teclas. Não vou lembrar do repertório. Recordo que o público a tratou com a reverência reservada às divas. Meu amigo, no entanto, bom pianista que não seguiu carreira, notou que ela esbarrava muito nas teclas. Eu não notava nada disso, mas ele ficava indicando as horas em que isso acontecia. Tagliaferro, nessa época, tinha perto de 90 anos. Não sei se isso poderia servir de justificativa se compararmos com as apresentações de Arthur Rubinstein e Wladimir Horowitz quase nonagenários.

O melhor argumento é a do crítico João Marcos Coelho, de O Estado de S. Paulo: mesmo errando era genial. Coelho observa que um Lang Lang, jovem revelação no piano, de ascendência chinesa, não erra uma nota, mas falta emoção, alma. É um bom argumento. Rubinstein dizia que era impossível não errar algumas notas durante um concerto. Para os que associam a beleza à perfeição devem esquecer das brilhantes interpretações das Suites de Cello, de Bach, por Pablo Casals e ouvir as de Mischa Maysky ou de Yo-Yo Ma. Nos anos 1970 fizeram um alarde enorme sobre a perícia e técnica do pianista russo Lazar Berman. Desapareceu. Garanto que muita gente nem sabe quem é. Resumo da ópera: não basta a técnica para ser um grande virtuose. E Magda provou isso. Grandes músicos fizeram parte de seu círculo e a adoravam.

Na ocasião do lançamento pelo selo Doremi de uma caixa com dois cds e um dvd com gravações do 3º Concerto para piano e orquestra, de Prokofiev, e em áudio, de algumas obras de Chopin, Mozart e também de seu amigo venezuelano Reynaldo Hahn, volta-se a falar de Tagliaferro na imprensa. O crítico Irineu Franco Perpetuo, na Folha de S. Paulo, diz que “financeiramente arruinada pelo segundo casamento, continuo se apresentando em público com idade avançada, quando as mãos já não obedeciam aos comandos de seu cérebro com a mesma presteza.” Deve ser. Quando a vi, beirava os 90 anos. Morreu com 93. Ela e Guiomar Novaes estão entre os maiores intérpretes de todos os tempos ao piano. O bom desses lançamentos é de que têm sido relembradas.

Saint-Säens - Concerto nº 5:



Republicação de texto postado pela primeira vez em 4/3/2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Don’t Smoke in Bed

Aparentemente, lang não fuma
A cruzada de José Serra contra fumar em locais fechados, transformada em lei, junto com a possibilidade de multa e cadeia por dirigir alcoolizado resultou em grandes mudanças em São Paulo. Isso muda a paisagem, com pessoas andando nas ruas com cigarros na mão, braços para fora dos carros com aqueles tocos brancos fumegantes, pequenas aglomerações na frente de prédios comerciais. Sem tomar partido e saindo do real e entrando um pouco na fantasia, que belas imagens o cigarro nos deu no cinema! Cenas inesquecíveis de Humphrey Bogart com o cigarro pendurado no canto da boca, belas mulheres segurando-o sensualmente suas piteiras e aqueles desenhos sinuosos que as cinzas construiam de encontro com a luz e fundos escuros. Era um “chiaroscuro” muito diferente das que vemos nas pinturas renascentistas de um Caravaggio ou de um Rembrandt. A fumaça é o elemento de contraste, por excelência, dos filmes “noir” dos anos 1950.

A cantora kd lang não está no meu panteão de cantoras, certamente. No entanto é autora de versões definitivas de algumas músicas, principalmente daquelas que foram cantadas por outras: comparações são um bom parâmetro de avaliação. Na minha opinião, não existe melhor versão de Don’t Smoke in Bed, um clássico das “torch songs”, composta por Willard Robison. A dramaticidade com o que ela canta é do tamanho da dor que a letra passa. Na hora em que canta “don’t look for me / I’ll get a hand / Remember darling / Don’t smoke in bed”, arrepia. Cometo a imprudência de dizer que sua versão é melhor do que a de Nina Simone. A letra é um primor do abandono simbolizado pelo anel de casamento deixado e pela advertência: “não fume na cama” (reproduzo a letra no fim do texto). Outras conhecidas são cantadas por gente do calibre de Julie London, Peggy Lee, e das “modernas” Holly Cole, Patti Smith e Carly Simon, de quem falo mais adiante.

Simon, vestida para matar
Todas as canções de Drag referem-se ao cigarro. É uma espécie de “disco-conceito”, como é também o pioneiro álbum Only the Lonely, de Frank Sinatra. A capa é uma grande sacada: é kd, meio andrógina, vestida com um um costume masculino em pose de quem segura um cigarro, mas sem ele.

Outra versão que, se não é definitiva, está entre as melhores – e olhe que existem centenas ou até milhares de registros dela –, é a de So in Love, contida no dvd e cd Red, Hot + Blue, gravado em prol das pesquisas para a cura da Aids. Com algum esforço, ainda é possível encontrar o dvd, que tem vários clássicos da música americana dirigidos por gente como Wim Wenders, Percy Adlon, Jim Jarmusch e Neil Jordan e interpretados por David Byrne, Aztec Camera, Sinead O’Connor, Debbie Harry, Tom Waits, U2 e Annie Lennox. Não é pouco. Outro cd de lang, Hymns of the 49th Parallel, contém apenas canções de seus conterrâneos canadenses Neil Young, Leonard Cohen, Jane Siberry e Joni Mitchell. A Case of You, de Mitchell, Helpless, de Young e Hallelujah, de Cohen, valem uma atenciosa audição.

Quase tão bom quanto o registro de kd lang de Don’t Smoke… é o de Carly Simon. Nessa onda que se torna maçante, que é a de se gravar álbuns com clássicos americanos – Rod Stewart parece ter esquecido que é um cantor pop e, pensando na grana, gravou vários cds após o sucesso de sua primeira investida no gênero –, uma das primeiras cantoras do universo pop a embarcar nessa ideia foi ela. Torch, gravado em 1981 pela Warner Bros Records, possui preciosidades como I’ll Be Around (Alec Wilder), de 1942, o clássico ellingtoniano, I Got It Bad and That Ain’t Good, de 1941, I Get Along without You Very Well (Hoagy Carmichael), de 1939, Spring Is Here (Rodgers & Hart), de 1938, e Body and Soul (Heyman, Sour, Eyton e Green), de 1930, além de músicas da década de 1950 como Pretty Strange (Jon Hendricks e Randy Weston) e Not a Day Goes By (Stephen Sondheim), da década de 1980. Numa roupagem que pode assustar os mais empedernidos fãs de jazz, com arranjos de Mike Manieri, que toca marimba em algumas faixas e Warren Bernhardt no piano elétrico e sintetizadores, mesmo assim, agrada aos ouvidos de bom gosto. Tudo bem, tem o sax alto chatinho de David Sanborn, mas, em contrapartida, tem o do brilhante Phil Woods. Torch, como como nos induz o título, é um disco de dor de cotovelo e de corno, como as músicas rodrigueanas – refiro-me a Lupicínio e não ao grande dramaturgo Nelson Rodrigues. Bem nesse espírito, a composição da própria, From the Heart, é uma peça que merece estar no repertório desse gênero. Amigão, se você não se emocionar com essa música, corra para o seu psiquiatra, pois você está arriscado a estar sofrendo de palidez afetiva.

Além de Torch, não sei se por motivos comerciais ou emocionais, gravou mais um álbum com conceito semelhante: Film Noir, em 1997, pela Arista. Pelo título já dá para desconfiar. O clima do disco remete à fatal Gilda – “nunca houve uma mulher como Gilda” – a Lauren Bacall, a Humphrey Bogart e seu indefectível – já que o título se refere a ele – cigarro, à cara “feia” de Robert Mitchum surgindo das trevas e aos heróis amargurados e atormentados do cinema “noir”, estilo que dominou os anos pós-Segunda Guerra. No CD estão presentes a música tema do filme Laura, protagonizado pela inesquecível Gene Tierney e dirigido por Otto Preminger, o clássico alemão desse período, Lili Marlene e I’m a Fool to Want You, música símbolo de “dores de amores” e que se encaixa bem à fase em que Frank Sinatra viveu a perda de Ava Gardner; esta música está em Where Are You?, que com Only the Lonely, são daqueles discos para ouvir e sentar na sarjeta ou recostar-se no poste e chorar convulsivamente.

Para quem se interessar, transcrevo a letra de Don’t Smoke in Bed:

I left a note on his dresser
And my old wedding ring
With these few goodbye words
How can I sing
Goodbye old sleepy head
I’m packing you in like I said


Take care of everything
I’m leaving my wedding ring
Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed


Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed


kd lang canta Don’t Smoke in Bed 




Carly Simon canta Don’t Smoke in Bed

O belo piano de Gogô

Uma ex-namorada, para ralhar de mim ou me diminuir, adorava dizer que o meu gosto era o “gosto dos outros”. Em vez de me importar, resolvi encarar sua “ironia” sob outra ótica: “Sim, me importo com o “gosto dos outros”.” Sou curioso. Se alguém me disser que Waldick Soriano é bom, se não o conhecesse, certamente iria atrás de algum disco dele para conferir. A curiosidade é uma das boas qualidades que a gente tem: é assim que se conhece o novo. Uma das boas coisas desse mundo é a possibilidade de se trocar experiências, de entrar em sinergia com os mais próximos e, assim, é difícil conceber que alguém que está ao seu lado fique competindo com você. Inveja e complexo de inferioridade são uma “merda” – se o Lula pode proferir essa palavra, por que não nós, simples humanos à mercê da “merda” política?

Aprendi muito com o meu amigo Zeca Leal e o admiro. Sempre lembro de suas bem humoradas tiradas, de sua admiração pelo jazz West Coast, por Dave Brubeck e de sua paixão por Frank Sinatra. Seu humor era impiedoso até consigo. Gostava de dizer que foi o maior comprador de discos de Sinatra: quando ainda bebia, cada vez que punha um disco na vitrola, riscava-o e ia até a loja e comprava outro igual. Vitrola era o que, hoje, é o tocador de cd. Consistia de uma base giratória onde se colocava os compactos simples ou duplos – quando tinha uma música em cada lado, por isso, lado A e lado B, era simples; nos duplos, eram duas músicas em cada lado – e os lps, abreviação de “long playing”. O som “estava” nos microssulcos dos bolachões pretos de doze polegadas. Era produzido pelas vibrações que eram captadas por uma agulha de diamante e, eletricamente, iam para um amplificador de som e, finalmente, para as caixas acústicas. Uma boa cápsula – que era a peça que em que se encaixava a agulha – custava mais que um bom aparelho de cd. A conservação dos discos era complicada. Além de sofrer desgaste natural pela fricção da agulha com o vinil, qualquer risco resultava em indesejáveis “pipocares” no som. Os chiados ficavam por conta da poeira que ia entranhando nos sulcos devido à eletrostática resultante do contato do diamante com a superfície do disco. Os saudosos dos lps defendem que o som analógico é melhor do que os produzidos por tocadores de cd ou mp3, em que os sons são “bits”. Há uma certa verdade nisso. Há uma sensação de melhor ambiência no som analógico – é mais redondo – enquanto o dos cds, depois de muitas horas de audição, causam uma fadiga sonora. Com as modas “retrô” que, vira e mexe, resgatam alguma coisa, voltaram a vender lps de vinil, só que a preço de ouro.

Como Zeca era da época dos lps, costumava vir a minha casa para gravar seus discos preferidos para poder ouvi-los sem os velhos chiados. Durante as sessões de gravação rolava muita conversa e muita informação nova, pelo menos para mim. A curiosidade me ensinou muito. Zeca era amigo de Dick Farney – fazia até sua declaração de imposto de renda –, Dick era amigo e parceiro de Gogô, apelido e nome artístico de Hilton Jorge Valente. Zeca foi aluno de piano de Gogô. Zeca sempre falava dele.

Muitos anos depois – e bota ano nisso –, na Folha de S. Paulo, na coluna em que anunciam alguns lançamentos de música, um título chamou-me a atenção: O Piano de Gogô. Logo vi que devia ser o tal amigo do Zeca. Saí à procura do disco para comprá-lo. É a velha história dos independentes. Onde achar? Por uma coincidência daquelas, Bruna Prado – boa cantora, guardem o seu nome –, filha de uma amiga, fora sua aluna na Unicamp. Foi assim que o disco chegou na minha mão. Em dois dias ouvi umas cinco vezes. Na primeira vez, não me impressionou muito. A cada audição gosto mais. Não é daqueles cds de fazer “cair o queixo”. Devemos sorvê-lo vagarosamente, prestando atenção em detalhes que se sobressaem a cada ouvida. Essa é a sua grande qualidade: a de levá-lo a descobrir cada detalhe que não foi notado antes.

A capa do CD
Os sidemen e as participações especiais de Alaíde Costa, o promissor violonista, seu ex-aluno na Unicamp, Alessandro Penezzi, e o consagrado Guinga, contribuem para a qualidade instrumental do álbum. É um belo time: Nailor Proveta, Leandro Braga, Zeca Assumpção no baixo e mais um tanto de gente boa. Proveta é mestre onde coloca a mão: toca clarinete, sax-alto e fez alguns arranjos. Que belo solo o de Gogô em Doce de Coco, de Jacob do Bandolim, e que estupenda é sua interpretação na última faixa do cd, Chegaste, composição sua. O duo de piano com Gogô e seu ex-aluno, Leandro Braga, é pura poesia, tanto quanto é o arranjo de Senhora das Campanelas, composição do mestre Guinga, com a riqueza de seu piano, o solo de clarineta baixo de Otinilo Pacheco e do oboé de Lazarov MB. Gogô é o arquiteto das harmonias e belas linhas melódicas.

Zeca, obrigado. Por causa de você conheci o Gogô. Valeu. E obrigado para quem fez com que esse maravilhoso cd me chegasse às mãos.

O CD pode ser encontrado nos seguintes sites:
Livraria Cultura: http://bit.ly/cAXyjk
CD Point: http://bit.ly/aJ7gIy

Algumas amostras do talento de Gogô:

Doce de Coco



Chegaste

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sobre Richard Strauss e saudades da Edgar Discos

Lembro que, por recomendação de alguém, conheci uma pequena loja de discos que ficava espremida entre a Cultura Inglesa e a delegacia do bairro. Na rua Lacerda Franco gastei boa parte da minha mesada em lps na Edgar Discos. Era uma dessas casas de bairro cuja frente resumia-se à janela do quarto da frente e uma entrada lateral que possuia um portão baixo de ferro. Quatro ou cinco degraus acima, passava-se pela porta e pelo quarto da frente e, logo depois, à direita, chegava-se a um cômodo que não devia ter mais que quatro por quatro metros, entulhado de discos novos e usados. O “filé” eram os de segunda mão, principalmente para alguém que recebia uma mesada “na conta”. Economizava no lanche e no cinema para poder comprá-los.

Era uma família estranha. O Edgar usava um óculos de armação pesada, preto, que ampliava seus olhos e sua roupa não denotava que tinha sido alfaiate antes de ter a loja: calças mal ajambradas, meio largas, que iam descendo e deixava à mostra sua cueca “samba-canção”, daquelas que, antigamente, eram de ilhoses – sem elástico na cintura – e, por vezes, revelavam o que hoje chamam de “cofrinho”. Quase sempre sua mãe estava sentada numa cadeira vestida com camisolas de malha suedine branca com estampas coloridas e chinelos com meias soquete, geralmente cinzas, de lã. Tinha os cabelos grisalhos bem crespos, sempre puxados para trás e presos. Conversava de vez em quando com os clientes. Tinha o rosto comprido e suas bochechas saltadas marcavam a região da boca, dando-lhe uma aparência meio canina, meio “guarda” do pedaço. Sua esposa era uma senhorinha pequena de lábios bem finos e boca característica de quem usava dentaduras mal ajustadas, voz esganiçada de sotaque indefinível e seu indefectível “Edegar”. Tinha uma filha também, que quase sempre estava na loja. Usava uns óculos meio fora da moda e, como devia ter hipermetropia, como seu pai, seus olhos ficavam ampliados através das lentes e parecia um pouco com aquela moça que trabalhava no programa humorístico ‘Chaves’ que, até hoje é exibido na emissora do senhor Silvio Santos.

Fora essa estranheza toda, no setor dos discos novos, Edgar sempre tinha as últimas novidades. O bom era que sempre recebia discos promocionais com um selo em hot stamping onde se lia “Produto Invendável”. Custavam quase sempre a metade de um novo. Como recebia poucos desses, a tática era passar pela loja com frequência, o que no meu caso, era umas três vezes por semana.

Os discos usados ficavam nas prateleiras inferiores, cuidadosamente separados por gêneros. Ia direto nos setores de jazz e de música clássica. Lá estavam as “joias”, aqueles discos importados “detestados”, avant-garde demais, atonais demais, que não batiam com o gosto “normal” e eram uma pechincha. Formei boa parte de minha discoteca no Edgar. Além dos avant-garde como o Art Ensemble of Chicago, Anthony Braxton e Cecil Taylor, garimpei meus primeiros Art Tatum. Até hoje é um dos meus pianistas preferidos.

Alimentou também minha discoteca de música clássica. Tinha uns poucos discos de Bela Bartók, Debussy, Stravinsky e Mahler, comprados na loja Bruno Blois. No Edgar, arriscava mais. Se a aposta fosse errada, não teria custado muito dinheiro. E a oferta era bem razoável. Nessa busca pelo “desconhecido” comprei um disco com canções de Mahler, cantadas por um barítono de quem não me lembro mais o nome. Foi uma revelação. Paixão à primeira vista. Desde então, adoro os lieder cantados em alemão, principalmente. A voz humana é fascinante.

Um outro disco que comprei lá e me marcou foi o Vier Letzte Lieder (As Quatro Últimas Canções’, de Richard Strausss, cantada pela espanhola Montserrat Caballé e regência de Alain Lombard, da gravadora francesa Erato. Foi um impacto. Não tornou-se a minha peça de cabeceira apenas porque dificilmente ouço música deitado na cama. O primeiro lied, Frühling (Primavera) é fascinante. Seu início é impactante. É tensa, de beleza dramática e, ao mesmo tempo, transmite uma sensação de paz crepuscular. Não é à toa que são as últimas peças completas compostas por Strauss. O compositor de Also Sprach Zarathustra deve ter ido para o céu depois desse “testamento”.

Pelo interesse pela música cantada descobri a Canção da Terra (Das lied von der Erde), de Mahler – que comprei usado no Edgar, com regência de Bruno Walter –, depois, descobri os lieder de Schubert, Schumann, Canteloube, Poulenc e Duparc. Descobri que mais atrás existiam as ‘Paixões’ de Bach, sua Missa em si menor, o Vespro della Beata Vergine e Orfeo, de Monteverdi, as canções de trevas de Charpentier. É um universo sem fim.

Por conta de um tanto de obsessividade, quando gosto de uma peça, procuro ouvir várias versões para poder compará-las. Tenho várias versões do Cravo Bem-Temperado, das Suites para Cello, de Bach, do Vespro della Beata Vergine, de Monteverdi, e de Vier Letzte Lieder, de Richard Strauss. E, assim conheci Elisabeth Schwarzkopf.

Veja e ouça Richard Strauss / Im abendrot com outra excepcional cantora, Renee Fleming: