Em maio de 2008 foi lançado o segundo cd de Cat Power cantando covers. Começa arrasando com uma versão de New York, New York (Fred Ebb/John Kander), simplesmente, estupenda. O excesso de adjetivos para elogiá-la será pouco para o quanto ela deixa sua marca de originalidade em suas interpretações. Ramblin’ Man, de Hank Williams, entra em seguida, quase como uma continuação da primeira faixa. Ao contrário de The Cover Records, em que a instrumentação se resume ao piano, ou ao violão ou guitarra, neste temos intervenções de guitarra, de pianos elétricos, além da “cozinha” baixo/bateria.
Intérprete especial, Chan é ótima compositora. Seus álbuns anteriores são a confirmação dessa sua qualidade. Metal Heart, terceira faixa, é maravilhosa e tinha sido lançada em Moon Pix. É melancólica, “pra variar”, como alguma dor congênita, e é dramática sem derramar-se. Silver Stallion é uma canção de sabor folk, calma. Em Aretha, Sing One for Me um órgão Hammond e um piano elétrico “levantam’ o astral, meio rhythm’ blues. Lost Someone, de Bobby Byrd, Lloyd Stallworth e James Brown, com uma guitarra simples e a bateria marcando a base rítmica é a “moldura” para a voz levemente anasalada da cantora. Lord, Help The Poor & Needy, só com a guitarra, Chan lamenta-se na tonalidade “bluesy light”.
I Believe in You, de Bob Dylan, é energica. Não lembro da interpretação original do americano, mas as inflexões vocais dylanescas são inconfundíveis nesta versão. ‘Song to Bobby’ é a outra original de Cat. Não podiam faltar as músicas “down”, que se encaixam perfeitamente ao seu “jeito” único de cantá-las. ‘Don’t Explain’, original de Billie Holiday e Arthur Herzog Jr. é um dos ponto altos do álbum. A outra é Blue, clássico de Joni Mitchell, bela composição do início de sua carreira da canadense.
Quando foi lançado, houve uma edição especial com um segundo CD. A primeira, I Feel, de Thomas/Dorsey/Gray/Carter/Virgil, só com o piano é Cat Power puro: é aquela sensação de desproteção. Breathless, de Nick Cave, é outro exemplo. O “lado escuro” de Cave combina bem. A guitarra meio Ry Cooder, meio Marc Ribot e os acordes de violão “rastejam”. A canção mais impressionante de bela, no entanto, é Angelitos Negros, de Manuel Alvarez Maciste, que musicou um poema do venezuelano Andres Eloy Blanco. Uma guitarra e a batida da bateria “a la” Bolero, do franco-basco Maurice Ravel, imprimem um clima espanhol em “crescendo”. Descontemos sua dicção na língua espanhola. Ela é perfeita. She’s Got You, de Hank Cochran, é a última faixa. É boa, mas fica eclipsada com a beleza triste de Angelitos. “Siempre que pintas iglesias,/ pintas angelitos bellos,/?pero nunca te acordaste/?de pintar un ángel negro.”: é a última estrofe da música.
Para comparação:
Frank Sinatra, New York, New York:
Cat Power, New York, New York:
Veja e ouça Angelitos Negros:
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Uma gata chamada Chan Marshall
Nunca imaginei que uma música tão caracteristicamente “stoneana” pudesse receber uma interpretação tão diferente. Aposto que boa parte da humanidade deva ter ouvido alguma vez (I Can’t Get No) Satisfaction. Ela parece indissociável à voz de Mick Jagger, o vocalista dos Rolling Stones. Mas houve a versão igualmente “power” perpetrada pela voz e energia excepcionais de Otis Redding. Muito tempo depois, mais exatamente em 2000, surgiu uma versão que era tão diferente que, nem pelo refrão diríamos que era ‘Satisfaction’. Quem a entoava era uma voz melancólica, levemente rouca e anasalada, muito triste… e atraente. Quem era essa mulher? Cat Power? Nome estranho e enigmático, que podia, se visto sob uma ótica diferente, meio bobo também. O que nos fazia imaginar que era o nome de uma cantora, era o nome da banda de um componente apenas, como Durutti Column, cujo compositor e componente era Vinny Reilly. Belo nome, mas o que o anarquista Buenaventura Durruti, que comandou três mil homens no que ficou conhecida como Coluna Durruti (a banda de Reilly é grafada Durutti Column, com dois “t” e um “r”) que lutou contra Franco na Guerra Civil Espanhola tinha a ver com o tipo de música tão melancólica, tanto ou mais que a de Cat Power. Desfeito o enigma, o nome que se escondia atrás de Cat Power era uma moça chamada Chan Marshall.
Não é a primeira vez que Cat vem ao Brasil. Deve ser a terceira, o que nos faz imaginar que não seja tão desconhecida dos brasileiros; ou Chan deve ter gostado muito do Brasil. Não seria o primeiro astro a se maravilhar com o país. É bem conhecida a estada do australiano Nick Cave, que se casou com uma brasileira e morou durante alguns anos na Vila Madalena em São Paulo. Era figurinha fácil visto a circular num fusca pelas ruas paulistanas. O falecido Jim Capaldi, cofundador do Traffic, e o saxofonista que sempre toca nas apresentações dos Rolling Stones, Bobby Keys, apaixonaram-se por brasileiras e foram parar no Rio de Janeiro. Há alguns anos comentou-se que Chrissie Hynde iria mudar-se para São Paulo. Por onde andas, Chrissie?
Se essas vindas constantes de Chan são apenas coincidências, pelo menos, será um modo de ampliar seu número de admiradores. Sou fã muito antes dela aportar por essas terras. Foi amor à primeira vista, desde The Covers Records, em que a primeira faixa era a famosa música que cito no primeiro paragrafo. Os covers abrangiam estilos bem diferentes que, em seu modo de interpretá-los, faziam com que, de tão pessoais, tornassem-se suas composições. São de Lou Reed, Bob Dylan, ou conhecidos standards como Wild Is the Wind, de Dimitri Tiomkin e Ned Washington, que muitos devem conhecer cantada por outra “melancólica”, a maravilhosa Nina Simone. Muitos devem conhecer um clássico de 1959, Sea of Love, que deu título ao filme dirigido por Harold Becker e estrelado por Al Pacino e Ellen Barkin. Seu jeito personalíssimo de interpretar essas músicas, acompanhada por um piano simplório ou por um violão fazem de The Covers Records, um disco intimista, daquelas que nunca ouviríamos no meio de muita gente.
Cat Power não é um “blockbuster” como, digamos, Beyoncé, porque é para gostos mais específicos e requintados. Não deixam mentir os cineastas Wong Kar-Wai, que utiliza-se de The Greatest na trilha de My Blueberry Nights – ela faz uma ponta como atriz –, o sueco Lukas Moodysson em Mammoth – que não foi lançado ainda, mas foi exibido na última Mostra de Cinema, de Leon Cakoff – ou Pedro Almodovar em Abraços Partidos, com Werewolf. É um mérito ser incluído por Almodovar e Kar-Wai, mestres em escolher músicas para seus filmes.
No próximo texto, comentarei seu último lançamento, de 2008, e se chama Jukebox, que é também de covers, na maioria.
Veja e ouça:
Satisfaction:
Sea of Love:
Não é a primeira vez que Cat vem ao Brasil. Deve ser a terceira, o que nos faz imaginar que não seja tão desconhecida dos brasileiros; ou Chan deve ter gostado muito do Brasil. Não seria o primeiro astro a se maravilhar com o país. É bem conhecida a estada do australiano Nick Cave, que se casou com uma brasileira e morou durante alguns anos na Vila Madalena em São Paulo. Era figurinha fácil visto a circular num fusca pelas ruas paulistanas. O falecido Jim Capaldi, cofundador do Traffic, e o saxofonista que sempre toca nas apresentações dos Rolling Stones, Bobby Keys, apaixonaram-se por brasileiras e foram parar no Rio de Janeiro. Há alguns anos comentou-se que Chrissie Hynde iria mudar-se para São Paulo. Por onde andas, Chrissie?
Se essas vindas constantes de Chan são apenas coincidências, pelo menos, será um modo de ampliar seu número de admiradores. Sou fã muito antes dela aportar por essas terras. Foi amor à primeira vista, desde The Covers Records, em que a primeira faixa era a famosa música que cito no primeiro paragrafo. Os covers abrangiam estilos bem diferentes que, em seu modo de interpretá-los, faziam com que, de tão pessoais, tornassem-se suas composições. São de Lou Reed, Bob Dylan, ou conhecidos standards como Wild Is the Wind, de Dimitri Tiomkin e Ned Washington, que muitos devem conhecer cantada por outra “melancólica”, a maravilhosa Nina Simone. Muitos devem conhecer um clássico de 1959, Sea of Love, que deu título ao filme dirigido por Harold Becker e estrelado por Al Pacino e Ellen Barkin. Seu jeito personalíssimo de interpretar essas músicas, acompanhada por um piano simplório ou por um violão fazem de The Covers Records, um disco intimista, daquelas que nunca ouviríamos no meio de muita gente.
Cat Power não é um “blockbuster” como, digamos, Beyoncé, porque é para gostos mais específicos e requintados. Não deixam mentir os cineastas Wong Kar-Wai, que utiliza-se de The Greatest na trilha de My Blueberry Nights – ela faz uma ponta como atriz –, o sueco Lukas Moodysson em Mammoth – que não foi lançado ainda, mas foi exibido na última Mostra de Cinema, de Leon Cakoff – ou Pedro Almodovar em Abraços Partidos, com Werewolf. É um mérito ser incluído por Almodovar e Kar-Wai, mestres em escolher músicas para seus filmes.
No próximo texto, comentarei seu último lançamento, de 2008, e se chama Jukebox, que é também de covers, na maioria.
Veja e ouça:
Satisfaction:
Sea of Love:
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