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quinta-feira, 10 de março de 2011

Madeleine Peyroux. P. 2

Quando Madeleine Peyroux lançou seu primeiro disco Dreamland, em 1996, não era exatamente uma iniciante. Os pais haviam se separado e sua mãe resolveu mudar-se para Paris com os dois filhos. Madi, como é chamada pelos familiares e amigos, tinha treze anos. Imaginem uma menina com essa idade numa terra estranha. Com quinze anos estava cantando nas estações de metrô e nas ruas de Paris. Aproximou-se de outro “expatriado”, bem mais velho que ela, Daniel William Fitzgerald, e se juntou a sua banda, The Lost Wandering Blues. Sua mãe nem sabia disso. Um dia, andando pela cidade, ouviu uma música familiar, que costumava cantar para a filha. Reconheceu a voz: era Madeleine. Essa breve experiência foi valiosa para sua formação.

A hippie Medeleine
Bare Bones é seu quarto disco solo e seu primeiro em que todas as composições são próprias, em parceria com o baixista e produtor Larry Klein, D. Batteau, Julyan Coryell e o “Steely Dan” Walter Becker. Os destaques são as lentas Damn the Circumstances, Love and Treachery, Our Lady of Pigalle e Somethin’ Grand, que é o título do DVD lançado no Brasil.

Ele foi gravado em um clube de Los Angeles, o que lhe confere um clima intimista. A maioria das músicas do programa são do último CD. Sem ser maravilhoso, deve agradar seus fãs, que vão poder vê-la em suas tevês e telões e também aos que não possuem algum disco dela. Estão lá os maiores sucessos dos cds anteriores: Dance Me to the End of Love, de Leonard Cohen, La javannaise, de Serge Gainsbourg, a linda Between the Bars e, claro, La vie en rose.

A banda que a acompanha é de primeira, com Larry Klein no baixo, o discreto guitarrista Dean Parks, a “hippie” violinista “and other assorted instruments” Lisa Germano, o experiente pianista Jim Beard, Sam Yahel no orgão Hammond e piano elétrico e Joey Waronker na bateria. O show não tem nada desses momento catárticos em que o público grita, chora, canta junto ou esperneia. É todo mundo sentadinho em suas caderias a ouvi-la. E é desse jeito que você, provavelmente, assistirá a esse DVD – refestelado na poltrona ou no sofá, com um whisky ou uma taça de vinho do lado… ou uma taça de champagne, que, talvez combine mais. As canções são como as pequenas bolhas que essa preciosa bebida produz: lentamente ascendem até a superfície.

Bom, imagino que o propósito de Peyroux seja esse mesmo: preencher o ar com música de bom gosto e fazer do público cúmplice desse clima que cria. É o bastante, mas pode ser pouco para quem quer “aquele algo mais”. É, ela não o emocionará a ponto de fazer desses momentos algo inesquecível. Com certeza, fará a satisfação de muita gente. Pena que o dvd tenha sido focado no último cd, o mais fraco de todos. Na maioria das vezes o reconhecimento ou consagração pública não coincide com o ápice criativo do artista. É assim mesmo. Em hipótese nenhuma o classificaria como dispensável, tampouco como indispensável. Porém, apesar desse discurso um tanto vacilante, considero o show registrado em dvd uma prazerosa experiência. Não me conformo apenas com a consultora de estilo – se isso existe… figurisnista? – que a fez se apresentar com uma roupa pavorosa de apresentador de circo, com direito até àquele chapelão alto.

Bom, mas muito bom mesmo é um dos extras. O documentário com a participação de sua mãe, Yves Beauvais, AR, na época, da Atlantic Records, que a descobriu, do produtor atual, Larry Klein e de Daniel William Fitzgerald, músico de sua banda de “rua” nos tempos parisienses, é um belo painel de sua trajetória de vida, mostrando como aquela adolescente virou uma das principais intérpretes da atualidade. Porque tem uma coisa até surpreendente: ela não parece nem um pouco ambiciosa. Não é uma Madonna da vida ou muitas outras que entram no business da música e almejam o sucesso a qualquer preço. Yves Beauvais, no documentário Something Grand diz que, depois de ouvi-la cantando num bar, foi até ela com um contrato para fazer parte do casting da major Atlantic Records.Foi um custo fazê-la assinar. Teve que insistir e até fazer uma pequena “chantagem”. Assinou, mas sem fazer pacto com o diabo.


Bare Bones




Something Grand.



J’ai deux amours.




Publicado em 5/11/2009

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Madeleine Peyroux. P.1

Em 1996, quando Dreamland foi lançado, algo chamou atenção da crítica: a cantora tinha a voz igual a de Billie Holiday. Se esse fosse o único chamariz, teria fracassado. Yves Beauvais, AR da Atlantic Record a descobriu cantando num bar dos arredores de Nova York a partir da dica de um amigo. Conseguiu contratá-la e foi produtor do disco junto com o baixista Greg Cohen. Yves cuidou muito bem de sua “descoberta”. Arregimentou músicos de jazz do primeiro time como o saxofonista James Carter, os pianistas Cyrus Chestnut e Stephen Scott, o trumpetista Marcus Printup e o baterista Leon Parker, a violinista Regina Carter, além do guitarrista Vernon Reid, antigo membro da banda Living Color e o também guitarrista Marc Ribot, conhecido por suas contribuições para Tom Waits, Lounge Lizards e o gringo-pernambucano Arto Lindsay. Sem ser exatamente um grande disco, mesmo assim Madeleine mostrou que vinha para ficar.

Para quem não sabia do problema do que ocorrera com sua voz, foi muito estranho o seu sumiço depois de tão auspiciosa estreia. Com exceção do CD que fizera com William Galison, oito anos separam Careless Love de seu primeiro disco. É muito tempo, o suficiente para qualquer um cair no esquecimento. Porém, ela não era “qualquer um”. A maioria do público a conhece a partir desse álbum: Dance Me to the End of Love, original de Leonard Cohen, foi largamente tocado e divulgado.

Apesar de boas interpretações no disco de estreia – La vie en rose, Hey Sweet Man, blues composto por Madeleine, A Prayer, em ritmo de música de parada americana e Muddy Water, em que ela parece a própria Billie Holiday reencarnada – acontece um salto qualitativo nos posteriores. Isso se deve, em parte, à produção de Larry Klein, o mago das vozes femininas. Sua longa parceria com a então companheira, Joni Mitchell, resultou em um conjunto de discos que representam a fase madura da compositora e cantora. Sua boa mão na produção é perceptível nos discos de Luciana Souza e Melody Gardot: basta comparar os imediatamente anteriores aos que produziu.

A atmosfera relaxada imprimida pelos músicos combina perfeitamente com o mood das composições próprias e das de outros autores como Bob Dylan (You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go), Vincent Scotto (J’ai deux amours) e Hank Williams (Weary Blues). A guitarra econômica de Dean Parks e, principalmente, o trabalho do organista Larry Goldings, que toca piano acústico e o elétrico wurlitzer, são os responsáveis pela atmosfera do disco. Os destaques, além da canção de Leonard Cohen, são Between the Bars e This Is Heaven to Me, a última.

Em Half the Perfect World, de 2006, Larry Klein é parceiro de Peyroux em várias composições, além de produtor. O álbum é uma coleção de boas interpretações, a começar da música tema do filme Midnight Cowboy, filme de John Schlesinger, protagonizado por John Voigt e Dustin Hoffman, Everybody’s Talkin’. A canção de Fred Neil, que tornou-se clássica na voz de Harry Nilsson, em 1969, com “Madi” é mais suave no belo arranjo em que o ritmo é dado por uma sutil percussão. Madi recebe a canadense k.d. lang em River, da também canadense Joni Mitchell. O terceiro canadense, Leonard Cohen, é o compositor de Half the Perfect World e da bela – uma das mais mais do disco – Blue Alert. Para completar, Madi interpreta La javanaise, de Serge Gainsbourg e termina com a eterna e bela Smile, de Charles Chaplin, John Turner e Geoffrey Parsons. “You’ll find that life is still worthwhile/ If you just smile.” Sim, vale a pena.

Como o texto está ficando longo, a segunda parte é sobre o último CD e sobre o DVD que acaba de ser lançado.

Sites:
Dance Me to the End of Love:



La javannaise:




Publicado 3/11/2009