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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Eu e a brisa


O ano de 1967 foi pródigo em revelar ou consolidar nomes hoje consagrados na música brasileira. Sem dúvida, 1967 foi especial. Foi a época dos grandes festivais de música e o país vivia a desesperança de presenciar o recrudescimento do regime militar e os brasileiros mal sabiam administrar suas angústias e aspirações. Dos festivais patrocinados pelas emissoras de televisão, o da TV Record era o que mais atraía a atenção. No III Festival de Música Popular Brasileira, os premiados foram Edu Lobo e Capinan com ‘Ponteio’, Caetano Veloso com Alegria, Alegria, Gilberto Gil com Domingo no Parque, Chico Buarque com Roda Viva e teve como finalistas Dori Caymmi e Nelson Motta com O Cantador e Sydney Miller com Maria, Carnaval e Cinzas. No mesmo ano, o II Festival Internacional da Canção Popular, no Rio, da TV Globo, revelaria Milton Nascimento.


Johnny nasceu Alfredo José da Silva
Neste festival da Record, não se classificou uma das mais belas canções de todos os tempos: Eu e a Brisa, de Johnny Alf. Tornou-se um hit, mas, de algum modo, reforçava a sina de seu autor. Alf, cuja carreira começou num longínquo 1952, e considerado um dos precursores da bossa nova, mais uma vez, ficou em segundo plano. Quando alguém comenta sobre aqueles que foram injustiçados, sempre lembram-se dele. E, pensando bem, é um enigma. Ruy Castro em sua coluna da página 2 da Folha de S. Paulo comentou que alguns falam em racismo. E diz que isso é pouco razoável, pois Jorge Ben, Paulo Moura, Dolores Duran, Baden Powell e Gilberto Gil “não eram arianos”. Uma possibilidade é a de que tenha ido um pouco na contramão da história. Carioca da Vila Isabel, em vez de ficar em sua cidade natal, a terra da bossa nova, mudou-se para São Paulo.

Johnny nasceu Alfredo José da Silva. No Instituto Brasil-Estados Unidos (Ibeu), onde estudava inglês, era chamado de Alf. O Johnny veio depois, por sugestão de uma amiga americana. Pianista de formação erudita – apesar de der filho de uma empregada doméstica, aprendeu a tocá-lo com Geni Borges, que era amiga da família para a qual sua mãe trabalhava –, descobriu o jazz mais tarde e teve Nat King Cole e Sarah Vaughan como ídolos. No Sinatra-Farney Fan Club conheceu Paulo Moura, Nora Ney, Luiz Bonfá e Fafá Lemos – um dos poucos violinistas de jazz no Brasil –, que o apresentou ao pessoal da boate Montecarlo, de Carlos Machado. Não deu certo por causa de sua timidez. O verdadeiro empurrão viria de Dick Farney e passou a tocar na casa do radialista César de Alencar. Pouco depois, na boate do Hotel Plaza, em Copacabana, teria como espectadores habituais João Gilberto, Tom Jobim, Nara Leão, Carlos Lyra, João Donato, Luiz Eça e Dolores Duran. Em 1953 comporia Rapaz de Bem. Pois então, Alf era bossa antes do surgimento da bossa nova. Johnny tinha uma voz suave e incorporara modulações vocais tipicamente jazzísticas e suas harmonias no piano traziam um frescor que iria efetivamente transformar a música no Brasil.

Mudou-se para São Paulo e nos últimos três anos morou em Santo André. Nos anos 1970 morou em três lugares do bairro da Mooca, na zona leste da capital. Andava incógnito pelas ruas do bairro. Ia sempre à quitanda de dona Maria de Fátima, passava pela banca Falcão, que ficava na rua Fernando Falcão, perto da av. Paes de Barros, pegava alguns filmes em VHS na Shock Vídeo e frequentava a Casa de Mãe Augusta. Johnny era do candomblé. Quase ninguém sabia que aquele morador da Mooca era um dos grandes nomes da música brasileira. Alf não reclamava por falta de reconhecimento. Pelo contrário, achava-se reconhecido. Não faltava lugar onde pudesse tocar, era admirado pelos amigos, e isso bastava. É correto dizer que ele não teve a consagração que merecia em vida, mas a impressão é a de que isso não era motivo de amargura.

A brisa, propriamente dita
Segundo Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, dois dos maiores especialistas da música brasileira, Eu e a Brisa fora composta para ser cantada no casamento de um amigo, mas o padre proibiu que fosse cantada na cerimônia. Pelo jeito, o júri do Festival também não. Mas tornou-se um dos grandes sucessos do autor da igualmente belíssima ‘Ilusão à Toa’. Márcia a defendeu, com arranjo de Briamonte. Além do próprio Alf, muitos a gravaram: Maysa, João Gilberto, Leny Andrade, Caetano Veloso, Gilberto Gil e até Baby Consuelo. É difícil estragar uma música tão bela.

Nas horas de descanso, sento numa cadeira de praia, daquelas bem ordinárias, de náilon, no quintal, e, enquanto fumo um charuto, leio, ouço música, tenho a companhia da minha cachorra waimaraner Brisa que fica do meu lado. Eu e ela: eu e a Brisa.

Temos vários vídeos disponíveis na internet com vários intérpretes. Basta digitar seu nome. Existe em DVD o registro em Ensaio, programa dirigido por Fernando Faro. Paulinho da Viola conversa longamente e Johnny revela suas paixões e influências do mundo do jazz.


Leny Andrade canta Ilusão à toa.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O lugar comum de João Donato

Quando converso com meu amigo Alberico Cilento, uma das pessoas que mais conhece de música em São Paulo, vira e mexe o João Donato surge no meio dos assuntos. Uma vez estavam lá ouvindo música, conversando e Donato perguntou se podia fazer um café. E lá foi ele para a cozinha. Voltou com um bule numa das mãos e a xícara na outra. Ao notar que tinha um Steinway de quarto de cauda na sala, aproximou-se e viu que sobre ele estavam algumas partituras de música italiana. Uma delas era a de Parlami d’amore. Sentou-se, começou a tocar Parlami… e ficou improvisando sobre o tema. Alberico comentou que não revelava esse gosto por música italiana aos amigos, basicamente, amantes do jazz. Disse que, desde criança, gostava de um pianista daqueles que a gente chama de “piano cascata”, “flamboyant” etc, que tocam floreado, o Carmen Cavallaro, americano de ascendência italiana. Donato disse que gostava dele também: “quem toca como ele é gênio.” Lembraram do filme Melodia Imortal (The Eddy Duchin Story, de 1956, direção de George Sidney e protagonizado por Tyrone Power e Kim Novak), em que o Cavallaro “dublara” Power no piano (foi lançado em DVD no Brasil).

Na semana passada, João apareceu novamente numa conversa por telefone com Alberico. Disse que, em certa ocasião, Donato dissera que suas músicas preferidas eram Invitation, de Paul Webster e Bronislaw Kaper, e Speak Low, de Kurt Weill. Resultado: fui ver se tinha algum registro delas. E nessa, fiquei a ouvir João Donato o dia inteiro.

Retrato do artista quando jovem
Em Lugar Comum, gravado em 1975, tem um texto do próprio, muito bom, explicando que era seu segundo álbum com letras. Uma passagem marcante é quando fala justamente da música título: “A origem da primeira música, Lugar Comum, que dá nome ao disco, é um assobio de um homem descendo a canoa no Rio Acre, em Rio Branco. O rio passa bem no meio da cidade. Ao cair da tarde, eu estava lá, pequenininho ainda, com uns sete ou oito anos, não me lembro bem. Passou uma canoa com o cara assobiando, e eu fiquei melancólico pela primeira vez na minha vida, um sentimento até então desconhecido para mim. Fiquei pensando, ‘por que eu fiquei assim?’, mas eu sabia que esse sentimento vinha daquele assobio e eu guardei a melodia.” Bacana, não? Revelações ou iluminações transformam nossas vidas. Quem imaginou que aquele acreano se transformaria no grande músico que é inventando aquela batida suingada meio latina tão única.

Nos anos 1970 João estava em contato estreito com Gil e Caetano. Os dois colocaram letras em várias composições antes apenas instrumentais. João também acompanhou Gal nos shows de lançamento de Cantar. Aliás, é nesse disco que estão uma das melhores interpretações de A Rã, feita em parceria com Caetano Veloso, e o estupendo Até Quem Sabe, em parceria com o Lysias Enio. O piano de João Donato é para nocautear até o mais insensível dos trogloditas. Flor de Maracujá é outra que está neste disco e tem letra do mesmo Lysias, seu irmão. Aliás, Cantar é um dos melhores de Gal Costa: Canção Que Morre no Ar (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli), com um arranjo maravilhoso de Perinho Albuquerque é daqueles da gente cair duro. Outra, Lágrimas Negras, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, é uma das mais belas canções brasileiras de todos os tempos.

Cito outros registros que merecem ser ouvidos. Bananeira, letra de Gilberto Gil recebe tratamento jazzístico “samba jazz” no arranjo brilhante de um dos nossos grandes saxofonistas, J.T. Meirelles, e lembra um pouco a Banda Black Rio, com os naipes de sopros, o piano elétrico Fender Rhodes e a guitarra a la Steely Dan. E é cantada por Ed Motta.

Caetano Veloso, no álbum Cores, Nomes, canta Surpresa, breve e poética interpretação na música feita em parceria com Donato. Os temas lentos de JD têm sempre um clima de acalanto. Tem mais uma parceria com Caetano: Naturalmente.

Fim de Sonho, com letra de João Carlos Pádua, tem a interpretação precisa de nossa melhor cantora da atualidade – atenção, opinião minha –, a joão gilbertiana, Rosa Passos. Mais uma com Rosa: A Paz (João Donato e Gilberto Gil). Tudo na voz dela fica maravilhoso. Mais uma: Depois do Natal cantada pela bela voz de Djavan, mas a melhor é a de Nana Caymmi, lançado pela EMI-Odeon em 1979.

E tem mais: João toca trombone e bem. Em Olho d’Água, de Milton Nascimento, que está no Clube da Esquina 2 é dele o solo.

Vídeos:
JD/Bananeira




JD + Ed Motta

sábado, 27 de novembro de 2010

Retrato em branco e preto de Pedro Miranda

A pimenteira de Pedro
Li, certa vez, sobre um disco de uma cantora chamada Teresa Cristina apenas com composições de Paulinho da Viola. Meses depois aconteceu um show de Eduardo Gudin no Sesc-Vila Mariana em que Paulinho participava. Depois do show, alguns deles foram jantar no restaurante Walter Mancini, que fica na rua Avanhandava, em São Paulo. Convidado, lá fui eu. Sentei quase na frente de Paulinho. Num certo momento perguntei sobre o CD lançado pela Deck Discos. Ele, bom de conversa, sempre bem humorado, levantou as sombrancelhas, fez aquela pausa de “bem, o que vou falar?” e deu a entender que não tinha gostado com o olhar direcionado a uma moça bonita que estava sentada umas três ou quatro cadeiras à minha esquerda. Ela arregalou os olhos, guardando silêncio. Era a Teresa Cristina. Bem, aí foram só gargalhadas. Paulinho derramou-se em elogios. Como uma coisa leva a outra, quando assisti ao dvd que Teresa lançou com o grupo Semente – O Mundo É Meu Lugar – chamou-me a atenção a performance de uma cara que fazia um solo de pandeiro e cantava. Mas nem me dei ao trabalho de saber seu nome.

No começo de 2010, alertado por algumas referências elogiosas, inclusive a de Caetano Veloso, fui atrás de um disco de um certo Pedro Miranda. Chamava-se Pimenteira. Estava completado o círculo. Era ele o percussionista do show de Teresa Cristina.

É o samba negro? E o blues? A música é generosa, universal. Os universos se “entrelaçam” e resultam em belos “estranhamentos. A absorção da cultura africana por Pablo Picasso, a reinterpretação da linguagem do blues de Jimmy Page e Robert Plant na composição Since I’ve Been Lovin’ You, as gravações de Eric Clapton das composições de Robert Johnson, o samba “italiano” de Adoniran Barbosa, o jeitão “Brás” de Miriam Batucada, tudo faz parte dessa “estranha beleza”. Cada cultura traz um dado novo. Errou aquele jornalista da revista IstoÉ que, quando foi lançado o disco Insights, da Toshiko Akiyoshi–Lew Tabackin Big Band, em 1978, em sua imensa ignorância, querendo ser engraçadinho, disse que japoneses não deveriam fazer jazz – era uma coisa mais ou menos assim. O desinformado e preconceituoso jornalista nem devia conhecer o jazz, senão saberia que a bigband de Akiyoshi e do saxofonista e flautista Tabackin era considerada, disparado, a melhor, premiada por revistas especializadas de jazz e pela ‘Stero Review’. Desconhecia também que Akiyoshi tinha sido considerada a melhor arranjadora por cinco vezes e duas vezes como compositora e Insight tinha ficado em primeiro lugar nos melhores do ano pela revista Downbeat. Por isso, o samba pode ser negro e até javanês, diria Lima Barreto.

Pode ser um pouco moda se dizer das intertextualidades, mas é interessante esse cruzamento de informações e culturas. Numa matéria publicada em O Estado de S. Paulo, em dezembro de 2009, Pedro diz que em sua juventude ouvia só rock brasileiro e reggae. Paulinho da Viola, Cartola, ouvia se alguém estivesse ouvindo e ele estivesse por perto. A “revelação” acontece a partir do momento em que descobre que o samba era parte dele. Pedro vai tocar pandeiro e, certamente seu gosto pela batida pesada e “malemolente” do reggae estará incorporado. Do mesmo modo, seu jeito de interpretar o samba estará permeado pelas formas musicais de que gostava. Não é só por ser branco que seu samba terá uma “cara”.

A revitalização da Lapa carioca resultou em uma transformação de vários gêneros musicais brasileiros, principalmente, do samba e do choro. Teresa Cristina, assim como alguns que despontaram atuando nos bares da Lapa, estão renovando a música brasileira. São jovens e talentosos.

Além de Pedro Miranda, tem Marcos Sacramento, que fez o memorável Memorável Samba, álbum de 2004, que é um conjunto de pérolas do samba para nenhum “Moreira da Silva botar defeito“. Tem algo em comum entre os dois. Ambos têm vozes com registro um pouco mais agudo, diferente do de muitos sambistas negros. São vozes de brancos, assim como diferenciaríamos as vozes “negras” de Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald das “brancas” de Anita O’Day e June Christy. Eles são bons na escolha do repertório. São músicas de letras espirituosas tão características do samba “malandro”. No caso de Miranda, a mão de Cristina Buarque na pesquisa do repertório é evidente – o cantor credita a ela e a Paulão 7 Cordas nos agradecimentos.

Em 2002, com produção de Hermínio Bello de Carvalho, foi lançado o cd duplo O Samba É Minha Nobreza. Participavam dele Teresa Cristina, Paulão 7 Cordas, diretor musical do espetáculo e Cristina Buarque, que, sem muito aparecer, está em todas e é uma das responsáveis pelas “redescobertas” preciosas. Outro que participou deste projeto foi Pedro Miranda, cantando em várias faixas. Não é mero acaso que, nesse seu segundo disco solo, apresente tanta consistência,

O destaque em ‘Pimenteira’ são os arranjos, na maioria do violonista Luís Felipe de Lima. Ótimos, além da cozinha costumeira das cordas e das percussões, os sopros são o diferencial. As intervenções das flautas, dos trombones , dos clarones – prestem atenção no arranjo de Caso Encerrado – e dos saxofones são perfeitas. Em Meio-Tom tem até um órgão Hammond tocado por Itamar Assiere e um vocal fenomenal do Anjos da Lua. Outro “corpo estranho” é a inclusão do violino do franco-carioca Nicolas Krassik.

Se Pimenteira fosse apenas isso, já estava bom. Tem mais, no entanto. Há um repertório de músicas de compositores da nova geração, como Edu Krieger, Pedro Amorim, Moysés Marques e Maurício Carrilho, seus amigos da Lapa, e composições de consagrados como Nei Lopes, Elton Medeiros e Nelson Cavaquinho. A deste último tem letra de Alcides Lopes e estava inédita em disco. Chama-se Velhice. É um primor da rudeza com a figura feminina, como Mulher de Malandro, de Heitor dos Prazeres, ou Marido da Orgia, de Ciro de Souza. A letra: “Vejo você hoje em dia acabada/ Quem te viu, quem te vê,/ quando eras amada/ Hoje a velhice apoderou-se de você/ Eu não sinto saudade da/ Mocidade nem vivo a sofrer/ Assim diz você/ Assim diz você/ Vá te mirar no espelho e veja/ como estás velha/ Estás no último degrau da vida/ Não vou zombar de você/ Porque também vou pra lá/ Mais tarde a velhice de mim vai se apoderar”. É sempre divertido ouvir essas músicas em tempos tão politicamente corretos.

Veja e ouça Pedro Miranda e Teresa Cristina:



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O belo piano de Gogô

Uma ex-namorada, para ralhar de mim ou me diminuir, adorava dizer que o meu gosto era o “gosto dos outros”. Em vez de me importar, resolvi encarar sua “ironia” sob outra ótica: “Sim, me importo com o “gosto dos outros”.” Sou curioso. Se alguém me disser que Waldick Soriano é bom, se não o conhecesse, certamente iria atrás de algum disco dele para conferir. A curiosidade é uma das boas qualidades que a gente tem: é assim que se conhece o novo. Uma das boas coisas desse mundo é a possibilidade de se trocar experiências, de entrar em sinergia com os mais próximos e, assim, é difícil conceber que alguém que está ao seu lado fique competindo com você. Inveja e complexo de inferioridade são uma “merda” – se o Lula pode proferir essa palavra, por que não nós, simples humanos à mercê da “merda” política?

Aprendi muito com o meu amigo Zeca Leal e o admiro. Sempre lembro de suas bem humoradas tiradas, de sua admiração pelo jazz West Coast, por Dave Brubeck e de sua paixão por Frank Sinatra. Seu humor era impiedoso até consigo. Gostava de dizer que foi o maior comprador de discos de Sinatra: quando ainda bebia, cada vez que punha um disco na vitrola, riscava-o e ia até a loja e comprava outro igual. Vitrola era o que, hoje, é o tocador de cd. Consistia de uma base giratória onde se colocava os compactos simples ou duplos – quando tinha uma música em cada lado, por isso, lado A e lado B, era simples; nos duplos, eram duas músicas em cada lado – e os lps, abreviação de “long playing”. O som “estava” nos microssulcos dos bolachões pretos de doze polegadas. Era produzido pelas vibrações que eram captadas por uma agulha de diamante e, eletricamente, iam para um amplificador de som e, finalmente, para as caixas acústicas. Uma boa cápsula – que era a peça que em que se encaixava a agulha – custava mais que um bom aparelho de cd. A conservação dos discos era complicada. Além de sofrer desgaste natural pela fricção da agulha com o vinil, qualquer risco resultava em indesejáveis “pipocares” no som. Os chiados ficavam por conta da poeira que ia entranhando nos sulcos devido à eletrostática resultante do contato do diamante com a superfície do disco. Os saudosos dos lps defendem que o som analógico é melhor do que os produzidos por tocadores de cd ou mp3, em que os sons são “bits”. Há uma certa verdade nisso. Há uma sensação de melhor ambiência no som analógico – é mais redondo – enquanto o dos cds, depois de muitas horas de audição, causam uma fadiga sonora. Com as modas “retrô” que, vira e mexe, resgatam alguma coisa, voltaram a vender lps de vinil, só que a preço de ouro.

Como Zeca era da época dos lps, costumava vir a minha casa para gravar seus discos preferidos para poder ouvi-los sem os velhos chiados. Durante as sessões de gravação rolava muita conversa e muita informação nova, pelo menos para mim. A curiosidade me ensinou muito. Zeca era amigo de Dick Farney – fazia até sua declaração de imposto de renda –, Dick era amigo e parceiro de Gogô, apelido e nome artístico de Hilton Jorge Valente. Zeca foi aluno de piano de Gogô. Zeca sempre falava dele.

Muitos anos depois – e bota ano nisso –, na Folha de S. Paulo, na coluna em que anunciam alguns lançamentos de música, um título chamou-me a atenção: O Piano de Gogô. Logo vi que devia ser o tal amigo do Zeca. Saí à procura do disco para comprá-lo. É a velha história dos independentes. Onde achar? Por uma coincidência daquelas, Bruna Prado – boa cantora, guardem o seu nome –, filha de uma amiga, fora sua aluna na Unicamp. Foi assim que o disco chegou na minha mão. Em dois dias ouvi umas cinco vezes. Na primeira vez, não me impressionou muito. A cada audição gosto mais. Não é daqueles cds de fazer “cair o queixo”. Devemos sorvê-lo vagarosamente, prestando atenção em detalhes que se sobressaem a cada ouvida. Essa é a sua grande qualidade: a de levá-lo a descobrir cada detalhe que não foi notado antes.

A capa do CD
Os sidemen e as participações especiais de Alaíde Costa, o promissor violonista, seu ex-aluno na Unicamp, Alessandro Penezzi, e o consagrado Guinga, contribuem para a qualidade instrumental do álbum. É um belo time: Nailor Proveta, Leandro Braga, Zeca Assumpção no baixo e mais um tanto de gente boa. Proveta é mestre onde coloca a mão: toca clarinete, sax-alto e fez alguns arranjos. Que belo solo o de Gogô em Doce de Coco, de Jacob do Bandolim, e que estupenda é sua interpretação na última faixa do cd, Chegaste, composição sua. O duo de piano com Gogô e seu ex-aluno, Leandro Braga, é pura poesia, tanto quanto é o arranjo de Senhora das Campanelas, composição do mestre Guinga, com a riqueza de seu piano, o solo de clarineta baixo de Otinilo Pacheco e do oboé de Lazarov MB. Gogô é o arquiteto das harmonias e belas linhas melódicas.

Zeca, obrigado. Por causa de você conheci o Gogô. Valeu. E obrigado para quem fez com que esse maravilhoso cd me chegasse às mãos.

O CD pode ser encontrado nos seguintes sites:
Livraria Cultura: http://bit.ly/cAXyjk
CD Point: http://bit.ly/aJ7gIy

Algumas amostras do talento de Gogô:

Doce de Coco



Chegaste

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dalva, Herivelto e Keith Jarrett

Dalva e Herivelto
Em 1987, Marilia Pêra estrelou a peça A Estrela Dalva, onde, além de representar, cantava. A tumultuada relação da cantora Dalva de Oliveira com o compositor Herivelto Martins, conhecida de todos os fãs da era do rádio foi apresentada pela primeira vez no teatro e agora, em janeiro de 2010, na televisão na minissérie Dalva e Herivelto, com roteiro de Maria Adelaide Amaral. O gosto da escritora por recriar a partir de fatos reais da cena brasileira tem tornado conhecidas figuras importantes da nossa história, abrangendo de políticos a artistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Juscelino Kubitschek, apenas para citar uns poucos. Sem “nivelar por baixo”, Maria Adelaide “invade” os lares através da televisão e dissemina cultura sem o ranço do didatismo “realista-socialista” de alguns escritores.

A história da cantora do melhor Olhos Verdes (Vicente Paiva) e de sua relação tempestuosa com o compositor e intérprete Herivelto Martins serviu de inspiração para algumas obras definitivas do cancioneiro brasileiro. Que bela “lavação de roupa suja” é Atiraste uma Pedra: “Atiraste uma pedra com as mãos que essa boca/ Tantas vezes beijou/ Quebraste um telhado/ Que nas noites de frio te servia de abrigo/ Perdeste um amigo que os teus erros não viu/ E teu pranto enxugou// Mas acima de tudo, atiraste uma pedra/ Turvando esta água/ Esta água que um dia, por estranha ironia/ Tua sede matou/ Atiraste uma pedra no peito de quem/ Só te fez tanto bem”. Dores da perda, do desejo não consumado serviram de mote para centenas de músicas. Como “último desejo”, Noel Rosa, debilitado pela tuberculose, pede ao amigo que entregue a letra de Último Desejo à jovem dançarina de cabaré, objeto de sua paixão.

O autor de Ave Maria no Morro e Rosa transformaram suas dores em canções. Episódios marcantes são poderosos elementos inspiradores. Noel e Herivelto tinham o recurso da palavra. E para compositores e músicos que são apenas instrumentistas? Até onde esses acontecimentos podem influir em suas performances? Esta é uma pergunta que pode ser feita ao pianista Keith Jarrett.

Keith Jarrett
Keith, descontando suas idiossincrasias como recusar-se a tocar num piano que julgou “desafinado”, um Steinway, do Teatro Cultura Artística, que tinha sido levado ao Teatro Anhembi (SP), onde estava programada a apresentação, merecidamente está no “hall of fame” do século XX e, possivelmente, terá seu lugar no do século XXI. Jarrett é um músico ousado: além do jazz, tem vários álbuns em que toca Bach, Shostakovich e Handel. Com a concorrência de gênios como Glenn Gould, Sviatoslav Richter, Gustav Leonhardt e Wanda Landowska, sem querer comparar com esses grandes virtuoses, foi corajoso em botar a “cara pra bater”. E tocando, além do piano, o cravo.

Afora seus incontáveis discos em que gravou standards com seu trio – Gary Peacock no baixo e Jack DeJohnette na bateria –, todos de qualidade ímpar, Jarrett ficou conhecido por tocar sozinho peças que são improvisadas na hora, a partir do “nada”. Seu primeiro disco assim concebido foi o The Köln Concert, álbum duplo lançado em 1975. Foi o disco mais vendido de todos os tempos na categoria jazz. Causou sensação esse “modo” de Keith sentar-se ao piano, concentrar-se, e começar a tocar, produzindo sons sem temas pré-concebidos. O início do concerto de Colônia é de chapar. Até hoje, impressiona. Depois desse disco, foi ficando mais “ambicioso” e gravou um álbum triplo e, anos depois, gravou o Sun-Bear Concerts, vendido numa caixa com 10 lps. Cansou um pouco: parecia a exploração da mesma fórmula que deu certo. Olhando agora, descontando uma certa “arrogância”, e vendo que continua a produzir incessantemente, vemos que ele é genial mesmo e, fim de papo.

Sua última empreitada nos solos de improviso é um álbum triplo que saiu no meio de 2009. Chama-se Paris/London – Testament, lançado pela mesma ECM Records. Depois de Köln Concert tudo virou anticlímax, porque era tão bom que seria difícil imaginar que faria algo melhor nesse sentido. Testament chega perto. É natural que, com o passar do tempo, as pessoas se aprimorem em seus labores: “practice makes perfect”. Köln Concert foi o princípio. Jarrett sofisticou-se e seu “repertório de improvisos” ampliou-se.

A referência ao caso dos desencontros amorosos de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins não é por acaso. Jarrett, dias antes de um dos concertos, separou-se da mulher. Até que ponto esse episódio pode ter influenciado no resultado dessas apresentações?

Deve ter havido alguma influência sim. Independente das circunstâncias, ser abandonado pela esposa Rose Anne, depois de uma união de trinta anos, deve acarretar num estresse respeitável. Ao contrário dos solos dos anos 1970 e 80, em que os improvisos eram uma “espécie de viagens épicas pelo desconhecido”, segundo palavras do próprio Jarrett, este Testament e o concerto que deu no Carnegie Hall, em 2006, apresentam peças mais curtas nas quais desenvolve temas curtos e bem diferentes entre si. Deixam de ser momentos que se encadeiam em torrentes e tornam-se experimentos que “viajam” por momentos bem diversos e de andamentos em que delineiam-se as influências do bop, da música erudita, do “stride piano”, do gospel e do blues.

A primeira apresentação, que aconteceu na Salle Pleyel, em 26 de novembro de 2008, começa como se já estivesse iniciado. O primeiro número não parece um “começo”. Em Paris, seu piano é mais experimental, muitas vezes, quase atonal, como um exercício estilístico de técnica. Em vários trechos, em cima de ostinatos na mão esquerda, desenvolve os improvisos com a mão direita. Um dos pontos altos é a Parte III, um “stream” nas nas teclas dos graves e nos tons médios, dramática e melódica. Jarrett é um mestre que ouviu bastante os românticos. A Parte VII é um outro exemplo de seu talento melódico.

A segunda sessão aconteceu em 1º de dezembro em Londres. Antes da apresentação, Jarrett esteve perto de ter um colapso nervoso. Sentia-se extremamente vulnerável. Era a primeira vez em que ia tocar após saber que sua mulher estava se separando dele. Era época de natal e o colorido das ruas e o tráfego louco não se encaixavam com seu estado de melancolia; e, também, estava exausto depois da apresentação em Paris. Talvez por isso, sua apresentação em Londres foi mais “intensa”. A Parte I desse concerto inicia-se grave, dramática. A música é climática e melancólica. A Parte II é uma quebra desse “mood”. O som é nervoso, sincopado. A Parte IV é um dos momentos altos: impressionista, cheia de contrastes, que se acentuam com trinados nas notas agudas, enquanto a mão esquerda marca a música. Num certo trecho lembra a Catedral Submersa, de Debussy. A Parte V é um demonstrativo da capacidade de Keith em desenvolver um tema em longas evoluções que se assemelham a uma “passacaglia”, literalmente, com os dedos que passeiam em alternâncias quase dissonantes pelo teclado do piano. Na Parte VIII ele externa sua veia lírica. Emociona. Meio como uma forma de não embarcar na dor, alterna motivos mais melodiosos com temas em que evidencia-se sua habilidade. Com que maestria Jarrett camufla a “dor que deveras sente”. Em seus exercícios estilísticos a música parece ter saído de uma partitura de Messiaen ou de Bartók. E, por aí vai. Em alternâncias de climas Jarrett preenche o sentimento de vazio que causou a separação.

Ouçam a primeira parte do clássico The Köln Concert:





Ouçam um trecho do CD Testament (Paris, Part VII):


A música circular do Rabo de Lagartixa

Quando menos esperamos, encontramos na próxima esquina algo surpreendente. É o caso de O Papagaio do Moleque do combo Rabo de Lagartixa. O CD pode ter sido lançado em 2009, mas podemos tranquilamente classificá-lo como uma das boas novidades para o ano 10.

Formado por Daniela Spielmann no sax soprano, sax tenor e flauta, Alessandro Valente nos cavaquinhos, Marcello Gonçalves no violão de 7 cordas, Alexandre Brasil no contrabaixo e Beto Cazes na percussão, o Rabo… faz um som que renova o choro. Não são apenas exímios instrumentistas. Os arranjos são primorosos. Inventivos, é a linguagem do choro tradicional que passa por uma geração que absorveu influências de outros gêneros musicais.

Da mesma forma que o alemão Johannes Brahms, no século XIX, inspirou-se na regionalidade de seus “vizinhos” para compor suas Danças Húngaras e Béla Bartók, no século XX, este, húngaro de fato, serviram-se de manifestações musicais locais, o brasileiro Heitor Villa-Lobos valeu-se do folclore brasileiro para compor peças de música erudita. Músicos maiores da música popular não se cansam de incensar a sua importância para a afirmação de nossa identidade. É vital a contribuição de nosso Villa para a qualidade de algumas obras de compositores mais sofisticados como Antonio Carlos Jobim e Egberto Gismonti.

Contribuem para a disseminação da obra de Villa-Lobos para o mundo as gravações de sua obra pianística por Cristina Ortiz e Nelson Freire e as apresentações e registros fonográficos da Osesp para o selo sueco Bis.

O fato é que Villa-Lobos nunca deixou de ser “popular”. Sendo “erudito”, procurou disseminar a música por meio de programas como o dos cantos orfeônicos à época do governo populista de Getúlio Vargas. Independente dos nostálgicos de Vargas ou de seus críticos, ele não deve ter dado muita importância às possíveis injunções políticas. Circulou com desenvoltura entre sambistas e chorões, de quem era amigo. Subverteu as classificações do erudito x popular, como George Gershwin nos EUA. De maneiras diferentes, sim. As pesquisas de Villa-Lobos sobre a música regional serviram de base às suas criações. O dado interessante da sua obra é de como ele tornou o “popular” em “erudito” e de como “popularizaram” o “erudito” Villa. O movimento circular ao qual me refiro é essa “volta”: apropriando-se da música regional brasileira, constrói peças eruditas e estas, por sua vez, influenciam a música popular. O ciclo se completa assim como a cobra morde seu próprio rabo. Ou a lagartixa, que ao perdê-lo, o reconstrói.

Como nada nasce por geração espontânea, Rabo de Lagartixa demonstra que é fruto de muito tocarem juntos. Não é uma reunião acidental. No álbum ‘O Papagaio do Moleque’ os arranjos são mais ou menos divididos entre Daniela, o cavaquinista Alessandro Valente e o violonista Marcello Gonçalves. Cabe ao baixista Alexandre Brasil o arranjo da música-título e ao produtor Paulo Aragão a participação em Poema Singelo e Ondulando. Os destaques, na minha opinião, são Tristorosa, composição de 1910, uma “valsa triste’, e Canto Lírico, terceiro movimento do Quarteto de Cordas nº 1.

A faixa que abre o cd é Bachianas nº 1. O cavaquinho parece anunciar o Carnaval. Engano. Apenas a primeira parte das Bachianas foi usada: a Introdução (Embolada). O arranjo é o “carnaval” particular do Rabo. A base é “pesada” e impactante. Lembra um pouco Bye Bye Brasil, de Chico Buarque. Parece uma viagem por diferentes sons. Ao início bem ritmado que acompanha a abertura do som do cavaquinho, entra o belo solo de sax tenor de Daniela. O arranjo da saxofonista é brilhante. O arco do contrabaixo é passageiro e significativo. Essa primeira música anuncia um Villa-Lobos cheio de belezas. Pena que dure pouco mais que quarenta minutos.

Veja e ouça:

Toninho Horta, um talento pouco reconhecido?

Toninho nas alturas
Talvez por uma timidez atávica, Toninho Horta não tem o seu talento reconhecido no Brasil. Não é o único. O peso do marketing das gravadoras pesa bem. De vez em quando somos colhidos por avalanches como a do fenômeno Michael Jackson. O mercado tem essa característica blitzkrieg de atuar e nos fazer engolir qualquer coisa. No lançamento do álbum Thriller fomos literalmente “invadidos” pelas rádios, mtv’s da vida, Fantástico e outros órgãos de comunicação. Essas “invasões” são autoritárias e afetam o senso crítico das pessoas.

Nos anos 1960 aconteceu o fenômeno Beatles com os britânicos invadindo os EUA. Os marquetólogos não eram tão sofisticados como agora, mas é certo que havia uma estratégia por trás disso. Os Beatles acabaram e são cultuados até agora e a “marca” é vendida na forma de edições remasterizadas de todos os lps em mono e em estéreo, em adaptações para espetáculos como o que é apresentado pelo Cirque du Soleil, em gadgets e até em jogos para o Playstation e o X-Box, como o The Beatles Rock Band, que é um kit com bateria, microfone e uma réplica do baixo Rickenbaker de Paul McCartney. Os talentos reais estão acima do marketing. Os Beatles é uma banda para várias gerações. Sei de meninos de 10/12 anos que sabem cantá-los de cor, o que, até hoje, não consigo. Vejo crianças de todas as idades maravilharem-se vendo o desenho animado Yellow Submarine. Isso é prova de que, com ou sem marketing, continuam geniais e contemporâneos. Não é possível prever o tempo que vai durar o “fenômeno Michael Jackson”. O peso do mercado fez, pelo menos, uma vítima: ele, Michael.

Pode ser audácia demais se dizer que o talento está acima das armadilhas mercadológicas. Mesmo num lugar como o Brasil, ele impõe uma quantidade absurda de grupos sertanejos, de axé, de cantoras-dançarinas belas, de belo corpo e vozes menos, numa estratégia que só emburrece. Músicos com o perfil de Toninho Horta acabam sendo tragados pela indústria cultural rasteira, mas isso não acontece apenas no Brasil. Mas, a arte, como diz o artista plástico Boi (José Carlos Ferreira), “é um verbo auxiliar; presta-se a quem dela precisa.” Às pessoas que possuem a capacidade de discernimento para fruirem da arte de boa qualidade cabe propagar seus conhecimentos. E não são poucas. Se Toninho não é tão conhecido como Claudia Leite, paciência. Não é por isso que deixa de ser bom. A lógica do mercado brasileiro é tão cruel que não lançam discos de Egberto Gismonti há anos. Lançou um cd duplo chamado Saudações e, até onde sei, foi comentado apenas uma vez, merecendo página inteira em matéria de João Marcos Coelho, no jornal O Estado de S. Paulo. Quem quiser o disco, encomende em sites como a Amazon. Quase não se fala do músico de maior projeção internacional, atualmente, e não se falará muito de Toninho Horta nem de João Rabello, grande violonista, filho de Paulinho da Viola, sobrinho de Raphael Rabello e neto de César Faria. Contraditoriamente, falam bastante de Hamilton de Hollanda, de Yamandú Costa, André Mehmari e de Benjamin Taubkin. São bons intérpretes e fazem parte da seara da vida inteligente. Mas tem muito mais gente.

Minha amiga Maria Tereza disse que Toninho Horta está gravando um CD com participações de Ivete Sangalo, Djavan, Ivan Lins, Frejat, Beto Guedes, Erasmo Carlos e Sergio Mendes. Vamos esperar o lançamento do cd torcendo para que não tenha ficado “popularesco” e que fique mais popular sem perder suas melhores qualidades.

Uma das belas composições de TH é Vento. Achei um vídeo. Vejam também o “TH jazzístico” em Stella by Starlight, com Gary Peacock e Jack DeJohnette e participação especial de Nivaldo Ornellas.



O céu mais lindo do Brasil

O show de lançamento do disco Índia, de Gal Costa, em São Paulo, aconteceu no teatro da Faculdade Getúlio Vargas, em 1973. Ela estava no auge. Para uma cantora, o essencial é cantar bem, mas Gal era muito mais: bonita, corpo perfeito, sabia muito bem disso. Apresentara-se com pouquíssima roupa – afinal, qual era o nome do show? A melhor parte era a sessão acústica, em que se apresentava só com o violão. Sentada num banquinho, abria e fechava as pernas em movimentos lentos e sugestivos. Era para deixar seres de todos os sexos loucos, principalmente os que estavam nas primeiras filas.

Uma boa prévia da “temperatura” do espetáculo tinha sido a capa e o encarte do LP. A capa, foto de Antonio Guerreiro, era um plano fechado no seu ventre. Vestia uma peça vermelha do que seria a parte de baixo do biquini e uma espécie de um colar – ou cocar? – feito de palha que Gal segurava pouco abaixo da região do púbis. O melhor estava na parte interna: uma foto de Gal portando um arco e flecha com os seios descobertos. Aqueles peitos não causaram tanto escândalo como quando abria a blusa e os “descerrava” quando cantava Brasil no show que promovia O Sorriso do Gato de Alice. Foi objeto de falatório. Quem viu os peitos de Gal em 1973 deve saber que vinte anos são vinte anos e, que discussão besta essa a de se ficar falando que não devia tê-los mostrado! Ela quis mostrar e, pronto.


Um dos músicos que acompanhava Gal era Toninho Horta. Foi quem mais me chamou atenção. E não foi por sua competência como músico: um cara alto, magro, com uma calça vermelha, se não me engano, e com uma bota de gesso se destacaria em qualquer circunstância. Apesar de já conhecê-lo tocando em Clube da Esquina, era a primeira vez que o via no palco. Desde então, tornei-me fã de seu estilo econômico, melódico e quase acústico de tocar sua Gibson. Há, sem dúvida, uma “escola” de violão no Brasil. É uma tradição que passa por Baden Powell, Raphael Rabello e tantos outros. A guitarra, por sua vez, na música brasileira é um fenômeno mais recente e passa pelo pioneirismo dos Mutantes acompanhando Gilberto Gil em Domingo no Parque e da banda “roqueira” que acompanhou Caetano Veloso em Alegria, Alegria. O escândalo da introdução da guitarra na MPB tem alguma semelhança com o caso de Bob Dylan, que “subverteu” o folk ao se apresentar empunhando, pela primeira vez, uma guitarra elétrica em meados de 1960.

Sua qualidade como músico o levou a gravar discos nos Estados Unidos. De Minas para o mundo. O compositor de Beijo Partido e Viver de Amor é mais guitarrista que cantor. Tem, no entanto, personalidade soltando sua voz pequena. Mas é na guitarra e no violão que é genial. Nesses instrumentos privlegia a beleza dos sons. Ele é o instrumentista das sutilezas. Timidamente e com vagar os sons se “fazem ouvir”.

Como sou fã de trios, como referência de sua maestria, vou citar o álbum Once I Loved, gravado em 1992 para a Verve Records, com o baixista parceiro costumeiro no trio de Keith Jarrett, Gary Peacock, e o baterista Billy Higgins. Footprints, de Wayne Shorter, é uma amostra da elegância de sua guitarra e também do quanto Toninho deixa sua marca em uma composição do repertório jazzístico. Percebe-se seu “jeito” tão pessoal na bossa-nova de O Amor em Paz, de Jobim. Parece tão sua, que encontramos eco do clássico de sua autoria, Beijo Partido. E não é apenas na guitarra: no clássico My Funny Valentine arrasa no violão também.

Os comentários acima, na verdade, são apenas para, no final, dizer que uma das minhas composições preferidas de Toninho é Céu de Brasília, feita com Fernando Brant. E que versos mais lindos e exatos para a música senão Beleza bonita de ver nada existe como o azul/ Sem manchas do céu do Planalto Central/?E o horizonte imenso aberto sugerindo mil direções. Nem os políticos de Brasília conseguirão manchar este céu.

Ouça:


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