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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Joni Mitchell ficou pop e menos popular

Depois de discos muito bons nos quais explorou a linguagem do jazz, Joni Mitchell ligou-se a David Geffen, dono da gravadora Asylum – que, mais tarde fundaria a Geffen Records – e lançou Wild Things Run Fast em 1982, Dog Eat Dog e Chalk Mark in a Rain Storm. Foi o período chato. A ideia de Geffen de chamar Thomas Dolby para produzir um disco de Joni não foi bom negócio. Seu gosto por instrumentos eletrônicos, mais associados ao “new wave”, decididamente não combinou com o estilo da cantora. Foi um período em que, mesmo com os “apelos populares”, a vendagem de seus discos caiu.

A parceria que deu certo mesmo foi a dela com o baixista Larry Klein. Tornou-se coprodutor e foi, por doze anos, parceiros mais que profissionais. Wild Things Run Fast seria o primeiro em que trabalhariam juntos. Em 1994 lançou Turbulent Indigo, que deu mais um Grammy a Mitchell. É um disco brilhante com uma coleção de boas faixas. A melhor, sem dúvida, é Sex Kills: “Oh and the tragedies in the nurseries –/ Little kids packin’ guns to school/ The ulcerated ozone/ These tumors of the skin –/ The hostile sun beatin’ down on, The massive mess we’re in!/ And the gas leaks/ And the oil spills, And sex sells everything,/ And sex kills./ Sex kills…” Forte, não? E a música é também. É um dos clássicos dos anos 1980 e 90. Klein soube criar uma atmosfera envolvente, avara em intervenções instrumentais. A voz de Mitchell navega sobre uma base sonora econômica em que destacam-se o violão e “sugestões” que a própria Mitchell cria com poucos acordes nos teclados eletrônicos. Ouve-se uma nota de baixo, um breve solo de Wayne Shorter, um “steel guitar” e percussões que se amalgamam ao resto do tecido sonoro. É um dos grandes discos de Mitchell, como foram Hejira e Blue.

Seu disco seguinte, Taming the Tiger, possui muitas coisas em comum com o anterior. Uma delas é a de que os dois são um pequeno portfólio de sua obra pictórica. Apesar de sua habilidade com os pincéis, é uma “mistureira” de estilos, onde predomina a influência de Van Gogh (a capa de Turbulent Indigo é um autorretrato après Van Gogh sem a orelha), mas que tem ecos da pintura paisagística dos românticos americanos e ingleses e até do pré-rafaelita Dante Gabriel Rossetti e do americano Maxfield Parrish. É meio “segunda classe”, mas se descontarmos o fato de que, antes de ser pintora, é compositora e cantora de talento, tudo bem… aí vai um desconto – mesmo que ela, em uma entrevista, tenha dito que era antes, pintora e depois, musicista.

Mitchell e seu companheiro inseparável: o cigarro
Taming the Tiger pode ser considerado uma continuação de Turbulent Indigo. A base sonora é bem semelhante, mas as composições são inferiores. A melhor é a música-título, Turbulent Indigo. A última faixa, Tiger Bones, é Turbulent… em sua versão instrumental, por sinal, muito boa, e é uma amostra do estilo bem pessoal dela tocar violão, que nessa época ficou eletrificada e “sintetizada”. Se você é fã de seu estilo, isso se deve a algum tipo de identificação com tudo o que fez em sua longa carreira, que começou nos anos 1960. Como compositora soube ir se moldando aos “tempos mutantes”. Em 1980 a voz de Mitchell não possuia mais o frescor e os agudos que soltava em músicas como o clássico Woodstock ou em My Old Man. Porém, a maioria das características que marcaram seu estilo de compor e cantar se mantiveram. As mudanças na voz moldaram um outro “jeito” de cantar: ninguém fica impune aos abusos do cigarro, principalmente se for de alguém que começou a fumar com nove anos.

Mitchell canta Sex Kills.



Publicado em 1/12/2009

quinta-feira, 10 de março de 2011

Madeleine Peyroux. P. 2

Quando Madeleine Peyroux lançou seu primeiro disco Dreamland, em 1996, não era exatamente uma iniciante. Os pais haviam se separado e sua mãe resolveu mudar-se para Paris com os dois filhos. Madi, como é chamada pelos familiares e amigos, tinha treze anos. Imaginem uma menina com essa idade numa terra estranha. Com quinze anos estava cantando nas estações de metrô e nas ruas de Paris. Aproximou-se de outro “expatriado”, bem mais velho que ela, Daniel William Fitzgerald, e se juntou a sua banda, The Lost Wandering Blues. Sua mãe nem sabia disso. Um dia, andando pela cidade, ouviu uma música familiar, que costumava cantar para a filha. Reconheceu a voz: era Madeleine. Essa breve experiência foi valiosa para sua formação.

A hippie Medeleine
Bare Bones é seu quarto disco solo e seu primeiro em que todas as composições são próprias, em parceria com o baixista e produtor Larry Klein, D. Batteau, Julyan Coryell e o “Steely Dan” Walter Becker. Os destaques são as lentas Damn the Circumstances, Love and Treachery, Our Lady of Pigalle e Somethin’ Grand, que é o título do DVD lançado no Brasil.

Ele foi gravado em um clube de Los Angeles, o que lhe confere um clima intimista. A maioria das músicas do programa são do último CD. Sem ser maravilhoso, deve agradar seus fãs, que vão poder vê-la em suas tevês e telões e também aos que não possuem algum disco dela. Estão lá os maiores sucessos dos cds anteriores: Dance Me to the End of Love, de Leonard Cohen, La javannaise, de Serge Gainsbourg, a linda Between the Bars e, claro, La vie en rose.

A banda que a acompanha é de primeira, com Larry Klein no baixo, o discreto guitarrista Dean Parks, a “hippie” violinista “and other assorted instruments” Lisa Germano, o experiente pianista Jim Beard, Sam Yahel no orgão Hammond e piano elétrico e Joey Waronker na bateria. O show não tem nada desses momento catárticos em que o público grita, chora, canta junto ou esperneia. É todo mundo sentadinho em suas caderias a ouvi-la. E é desse jeito que você, provavelmente, assistirá a esse DVD – refestelado na poltrona ou no sofá, com um whisky ou uma taça de vinho do lado… ou uma taça de champagne, que, talvez combine mais. As canções são como as pequenas bolhas que essa preciosa bebida produz: lentamente ascendem até a superfície.

Bom, imagino que o propósito de Peyroux seja esse mesmo: preencher o ar com música de bom gosto e fazer do público cúmplice desse clima que cria. É o bastante, mas pode ser pouco para quem quer “aquele algo mais”. É, ela não o emocionará a ponto de fazer desses momentos algo inesquecível. Com certeza, fará a satisfação de muita gente. Pena que o dvd tenha sido focado no último cd, o mais fraco de todos. Na maioria das vezes o reconhecimento ou consagração pública não coincide com o ápice criativo do artista. É assim mesmo. Em hipótese nenhuma o classificaria como dispensável, tampouco como indispensável. Porém, apesar desse discurso um tanto vacilante, considero o show registrado em dvd uma prazerosa experiência. Não me conformo apenas com a consultora de estilo – se isso existe… figurisnista? – que a fez se apresentar com uma roupa pavorosa de apresentador de circo, com direito até àquele chapelão alto.

Bom, mas muito bom mesmo é um dos extras. O documentário com a participação de sua mãe, Yves Beauvais, AR, na época, da Atlantic Records, que a descobriu, do produtor atual, Larry Klein e de Daniel William Fitzgerald, músico de sua banda de “rua” nos tempos parisienses, é um belo painel de sua trajetória de vida, mostrando como aquela adolescente virou uma das principais intérpretes da atualidade. Porque tem uma coisa até surpreendente: ela não parece nem um pouco ambiciosa. Não é uma Madonna da vida ou muitas outras que entram no business da música e almejam o sucesso a qualquer preço. Yves Beauvais, no documentário Something Grand diz que, depois de ouvi-la cantando num bar, foi até ela com um contrato para fazer parte do casting da major Atlantic Records.Foi um custo fazê-la assinar. Teve que insistir e até fazer uma pequena “chantagem”. Assinou, mas sem fazer pacto com o diabo.


Bare Bones




Something Grand.



J’ai deux amours.




Publicado em 5/11/2009

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Madeleine Peyroux. P.1

Em 1996, quando Dreamland foi lançado, algo chamou atenção da crítica: a cantora tinha a voz igual a de Billie Holiday. Se esse fosse o único chamariz, teria fracassado. Yves Beauvais, AR da Atlantic Record a descobriu cantando num bar dos arredores de Nova York a partir da dica de um amigo. Conseguiu contratá-la e foi produtor do disco junto com o baixista Greg Cohen. Yves cuidou muito bem de sua “descoberta”. Arregimentou músicos de jazz do primeiro time como o saxofonista James Carter, os pianistas Cyrus Chestnut e Stephen Scott, o trumpetista Marcus Printup e o baterista Leon Parker, a violinista Regina Carter, além do guitarrista Vernon Reid, antigo membro da banda Living Color e o também guitarrista Marc Ribot, conhecido por suas contribuições para Tom Waits, Lounge Lizards e o gringo-pernambucano Arto Lindsay. Sem ser exatamente um grande disco, mesmo assim Madeleine mostrou que vinha para ficar.

Para quem não sabia do problema do que ocorrera com sua voz, foi muito estranho o seu sumiço depois de tão auspiciosa estreia. Com exceção do CD que fizera com William Galison, oito anos separam Careless Love de seu primeiro disco. É muito tempo, o suficiente para qualquer um cair no esquecimento. Porém, ela não era “qualquer um”. A maioria do público a conhece a partir desse álbum: Dance Me to the End of Love, original de Leonard Cohen, foi largamente tocado e divulgado.

Apesar de boas interpretações no disco de estreia – La vie en rose, Hey Sweet Man, blues composto por Madeleine, A Prayer, em ritmo de música de parada americana e Muddy Water, em que ela parece a própria Billie Holiday reencarnada – acontece um salto qualitativo nos posteriores. Isso se deve, em parte, à produção de Larry Klein, o mago das vozes femininas. Sua longa parceria com a então companheira, Joni Mitchell, resultou em um conjunto de discos que representam a fase madura da compositora e cantora. Sua boa mão na produção é perceptível nos discos de Luciana Souza e Melody Gardot: basta comparar os imediatamente anteriores aos que produziu.

A atmosfera relaxada imprimida pelos músicos combina perfeitamente com o mood das composições próprias e das de outros autores como Bob Dylan (You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go), Vincent Scotto (J’ai deux amours) e Hank Williams (Weary Blues). A guitarra econômica de Dean Parks e, principalmente, o trabalho do organista Larry Goldings, que toca piano acústico e o elétrico wurlitzer, são os responsáveis pela atmosfera do disco. Os destaques, além da canção de Leonard Cohen, são Between the Bars e This Is Heaven to Me, a última.

Em Half the Perfect World, de 2006, Larry Klein é parceiro de Peyroux em várias composições, além de produtor. O álbum é uma coleção de boas interpretações, a começar da música tema do filme Midnight Cowboy, filme de John Schlesinger, protagonizado por John Voigt e Dustin Hoffman, Everybody’s Talkin’. A canção de Fred Neil, que tornou-se clássica na voz de Harry Nilsson, em 1969, com “Madi” é mais suave no belo arranjo em que o ritmo é dado por uma sutil percussão. Madi recebe a canadense k.d. lang em River, da também canadense Joni Mitchell. O terceiro canadense, Leonard Cohen, é o compositor de Half the Perfect World e da bela – uma das mais mais do disco – Blue Alert. Para completar, Madi interpreta La javanaise, de Serge Gainsbourg e termina com a eterna e bela Smile, de Charles Chaplin, John Turner e Geoffrey Parsons. “You’ll find that life is still worthwhile/ If you just smile.” Sim, vale a pena.

Como o texto está ficando longo, a segunda parte é sobre o último CD e sobre o DVD que acaba de ser lançado.

Sites:
Dance Me to the End of Love:



La javannaise:




Publicado 3/11/2009

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O bardo canadense Leonard Cohen

Acho que todo mundo já notou que o ar em contato com a superfície quente do asfalto cria um efeito de “miragem”, que é como se estivéssemos a “ver” o ar em movimento. É possível ver tal fenômeno logo antes da largada de corridas de Formula 1, por causa do calor das pistas, dos motores e dos gases que saem dos escapamentos. Isso acontece em superfícies quentes e também em superfícies gélidas como as das regiões polares. Variações abruptas da temperatura do ar causam uma espécie de refração. Isso tem um nome: “fata morgana”, expressão que vem do italiano em referência à meia-irmã do Rei Artur que, “segundo a lenda, era uma fada que conseguia mudar de aparência ‘criando’ um efeito de ilusão óptica” (as aspas são porque tirei essa definição da Wikipédia”.

Werner Herzog fez um filme em 1971 com esse nome. Acho que poucas pessoas o assistiram. O cineclube da Faculdade de Arquitetura da USP promovia com frequência sessões de filmes de pouco apelo comercial, raramente exibidos em sessões comerciais. A primeira cena é a de um avião pousando num aeroporto no meio do nada. A câmera fixa “vê” a imagem sob o efeito da fata morgana. Essa cena se repete várias vezes “anunciando” que estamos chegando em um lugar de clima tórrido, no caso, ao deserto do Saara.

O filme, na época, impressionou-me. A trilha musical combinava perfeitamente com as cenas de paisagem desolada e despovoada. A amiga Ruth Klotzel disse que as canções eram de um cantor chamado Leonard Cohen. Procurei nas melhores lojas de São Paulo e não encontrei nada dele. Na primeira viagem que fiz a Nova York comprei o LP Songs of Leonard Cohen. E todas as músicas do filme estavam lá: Suzanne, So Long, Marianne, Hey, That’s No Way to Say Goodbye e Sisters of Mercy. Tornou-se meu disco predileto por muito tempo. A voz de Cohen era meio grave, melancólica e triste. Sem entender direito as letras, “via” as tais paisagens desoladas de Fata Morgana e imaginava que eram palavras de dor e abandono. No mesmo ano de 1971, Robert Altman dirigiu o filme McCabe and Mrs. Miller (Onde os Homens São Homens, em DVD, trocaram o título para Jogos e Trapaças). Warren Beatty era um jogador de cartas profissional que vagava de cidade em cidade atravessando regiões nevadas e desoladas. Eram viagens solitárias – ele e o cavalo – por lugares em que não se via uma vivalma. As canções que os acompanhavam também eram solitárias – a voz e o violão. Logo identifiquei que era Cohen. Provavelmente, nem Altman tinha visto o filme de Herzog e nem o contrário, mas era uma coincidência muito grande. No mesmo ano!

O canadense Leonard Cohen quando se tornou músico já era um escritor com algumas obras publicadas, o que explica a qualidade de suas letras, em contraste com a pobreza característica da maioria das canções pop/rock.

O melhor intérprete de Leonard Cohen é ele mesmo. Com quase 50 anos de carreira está sendo descoberto pelas novas gerações e estamos sempre a tomar conhecimento de intérpretes regravando-o. Sua voz, nos anos 1960, não era tão grave como agora. Mais áspera, perdeu um certo brilho. Devido a pequena amplitude de sua voz, o tom é sempre meio monocórdio. Pode-se dizer que inventou um estilo de cantar à sua medida. Suas limitações como cantor são camufladas pelos “backing vocals” femininos, violões acústicos ou esporádicas intervenções de algum outro instrumento. No século XXI a cozinha aumentou: presença maior de baterias, órgãos eletrônicos, saxes, gaitas e até algo parecido a uma guitarra portuguesa. Não dá para dizer que piorou. Pode-se dizer que, como todo mundo, transformou-se. Continua interessante. Alguns o compararão a Serge Gainsbourg ou ao australiano Nick Cave.

Vamos a Leonard Cohen pelos outros. Na área jazzística, Suzanne foi cantada por Dianne Reeves, René Marie e pelo novo darling do show business, Michael Bublé. No pop/rock temos First We Take Manhattan com o R.E.M., Hey, That’s No Way to Say Goodbye, com IanMcCulloch, vocalista do Echo & The Bunnymen, So Long Marianne com a banda inglesa James, Chelsea Hotel com Lloyd Cole, Hallelujah com John Cale, ex-membro do Velvet Underground, Suzanne com Nick Cave e uma estonteante Who by Fire pela banda underrated House of Love. Sua conterrânea k.d. lang, como de costume, interpreta um irretocável Hallelujah e um belo Bird on a Wire em seu último CD Hymns of the 49th Parallel. Num terreno que nem é pop nem é música erudita, a canadense Patricia O’Callaghan no CD Real Emotional Girl interpreta várias de seu repertório: Hallelujah, I’m Your Man, Take This Waltz e A Singer Must Die. Vale a pena ouvir.

Uma sugestão para se conhecer todos os sucessos de Cohen é o recém-lançado Live in London, duplo, que saiu em abril deste ano. Ele fala um pouco demais no show, mas está perdoado depois de tanta coisa boa que compôs.

kd lang: http://www.youtube.com/watch?v=P_NpxTWbovE&feature=related
Patricia O’Callaghan: http://www.youtube.com/watch?v=pYLsH0KQCl4
Leonard Cohen / ‘Hallelujah’: http://www.youtube.com/watch?v=ttv5dyvtF4o&feature=related

Publicado em 8/10/2009

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Charlotte é melhor que Scarlett

Pelo título, alguns, por antecipação discordarão. Pois, Charlotte Gainsbourg é melhor que Scarlett Johannson. Ou, ao menos, é mais inteligente. Quanto às suas carreiras como atrizes, merecem elogios. E como gosto é uma questão pessoal, aposto que tem gente que acha Charlotte mais bela que a americana. Vá lá, a filha de Jane Birkin, de quem herdou a magreza, seios pequenos, as pernas finas que começam separadas abaixo do púbis e unem-se nos joelhos, e nariz, olhos e boca carnuda do pai, o bardo Serge Gainsbourg, pode não se encaixar nos padrões mais comuns de beleza, mas tem seu charme. “Viva a diferença!”

Belo e enigmático olhar de Charlotte
Desde que Jane Birkin resolveu sussurrar em Je t’aime moi non plus, a impressão é a de que esse jeito “sensual” de cantar replicou-se. Ou será uma característica das francesas, assim como aquela voz de registro “Pato Donald” de muitas cantoras americanas? A mais famosa cantora francesa, Edith Piaf, era dramática. Pequenina e feinha, tinha voz poderosa. Juliette Greco, nem tanto. Françoise Hardy, que fez muito sucesso nos anos 1960 tinha um jeito “doce” de cantar. Pode ser considerada uma antecessora desse gênero. O fato é que hoje, parece ser a tônica dominante. Para efeito de comparação, falo das cantoras “C”: por coincidência, as que cito têm nomes que se iniciam com esta letra. Coralie Clément é uma delas. É uma espécie de Henri Salvador de saias no seu estilo “demi” bossa nova. A outra é a primeira dama Carla Bruni. Agora que está casada com o presidente Sarkozy, resolveram falar mal dela, mas é competente. É inegável o charme com que canta Quelu’um m’a dit ou La ciel dans une chambre. Se a crítica é sobre ela ser a primeira-dama da França, bom, era onde devia estar. Afinal, depois de uma carreira como modelo de sucesso, namorado Eric Clapton e ter deixado Mick Jagger de “quatro”, era o que restava para o sua brilhante carreira. Outra que canta suave é Camille, que é bela, mas é uma sub-Björk, só que cantando em francês. E agora, tem Charlotte.

Charlotte distoa. Seu cd 5:55 tem qualidades. Não se dando muita importância à voz pequena, afinada e nada excepcional, a filha de Serge herdou alguma coisa de seus pais. Inteligentemente, associou-se a Jarvis Cocker, ex-fundador da banda Pulp – sujeito de talento – e a dupla que forma a banda Air, que tem no currículo Virgin Suicides, trilha do filme do mesmo nome, dirigido por Sofia Coppola, Moon Safari, Talkie Walkie e Love2. A atmosfera característica da dupla “acolchoa” a voz de Charlotte. Tel que tu es é uma bela canção. Tem um piano combinando com sons de guitarra, glockenspiel e uma orquestra de cordas de extremo bom gosto. Beauty Mark é outra que merece o adjetivo de belo. É climática e o arranjo orquestral simples faz belo conjunto com a voz de CG. Nas seguintes, Little Monsters e Jamais e Night-Time Intermission, a voz pequena de Charlotte é o perfeito encaixe para as aventuras atmosféricas Air. Everything I Cannot See, começa com um violão e um piano meio “flamboyant”.  A primeira estrofe não é cantada. É “falada” – não uso a palavra “declamada”, que não combina a sua delicadeza. É mais dramática. Certamente tem o tom mais característico das composições de Jarvis Cocker. Morning Song é a única em que Charlotte aparece como coautora junto aos seus parceiros. É um belo final. Depois que surgiu o CD inventaram de interromper a música e, quando a imaginamos terminada, continua. Depois de um silêncio de um minuto, retorna, mais agitada.

No começo deste ano foi lançado o terceiro CD de CG. O primeiro foi lançado quando tinha 15 anos, mas não se deve levá-lo em consideração: tinha a “mão-de-gato” do pai, e era uma adolescente. Hoje está com 38 anos. Vai aí um gap de mais de 20 anos. O que conta é que, desde 5:55 pode ser considerada uma cantora de fato. Inteligentemente, como foi no álbum anterior, escolheu bem o seu parceiro: o cantor e compositor americano Beck. Daí, está certo que não há santo que faça milagre com coisa ruim. Conclusão: mais um bom disco. Desde já, este CD contém uma séria candidata a ser uma das “10 mais” do ano: Heaven Can Wait. A letra é “sacadíssima”: “Heaven can wait and hell’s too far to go/ Somewhere between what you need and what you know/ And they’re trying to drive that escalator into the ground.” “O céu pode esperar e o inferno é tão longe/ Um lugar entre o que você precisa e o que você conhece”: genial. Me and Jane Doe tem um sabor meio country/folk com um backing que parece uma intervenção vocal interplanetária dos Beach Boys. Vanities é um luxo: instrumentação de “viagem”, meio “progressiva”. É o momento de calma que antecede Time of the Assassins.

Trick Pony (não é o One-Trick Pony de Paul Simon), meio blues/rock, tem o “estilo Beck” na parada. A marcação leve/pesada é cheia de sutilezas, de distorções discretas de guitarra e a voz doce de CG. ‘Dandelion’ é outra. Na marcação do baixo e da bateria, Beck distribui cacos de sons orquestrais e um acorde ou outro de guitarra. Tudo se encaixa tão bem! Voyage, que é cantada em francês, tem uma batida parecida, que se interrompe em ataques de cordas, “fundos” de contrabaixos tocados no arco em contraste com uníssonos das cordas médias. Dandelion e Voyage estão entre as melhores do álbum. Looking Glass Blues tem uma pegada mais rock com presença mais forte das guitarras distorcidas. É a faixa bônus do CD. Não soma muito.

No verão de 2007, viajando de férias nos Estados Unidos, Charlotte sofrera uma queda fazendo esqui aquático. Seis meses depois foi ao médico por sentir dores de cabeça frequentes. Submetida a um IRM – acrônimo em francês de “magnetic ressonance imaging” (MRI) –, foi constatado que tivera uma hemorragia interna na ocasião e era sorte que estivesse viva. As duas primeiras músicas referem-se a esse episódio: Master’s Hands e IRM. A terceira é Le chat du Café des Artistes. É a segunda melhor do disco. A voz pequena se equilibra num arranjo orquestral meio fantasmagórico e grandioso. É Beck. In the End é uma música charmosa, quase uma canção de ninar, o som do glockenspiel nos remete àquelas caixinhas de música.

A grande vantagem de Charlotte sobre Scarlett é a de que “esquecemos” que ela é atriz, enquanto, no caso da segunda, não conseguimos deixar de pensar que é uma atriz cantando. Como Marilyn Monroe, o que não é nada mal também.

5:55.



Heaven Can’t Wait, com Beck.


Esse texto foi publicado em 4/2/2010, originalmente.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Scarlett Johansson: ela até canta

Scarlett e o “tiozinho” Woody Allen
É bem antiga essa história de atrizes que cantavam. Uma das raízes do cinema americano está na tradição de musicais encenados nos palcos. Há uma infinidade de cantoras/atrizes, algumas excepcionais, como Judy Garland. Atrizes queriam cantar e cantores queriam atuar. O maior de todos os tempos não era mau ator. Frank Sinatra era um grande showman… e bom ator. Seus programas para a televisão eram divertidos. E seus amigos Dean Martin e Sammy Davis, Jr. também. Existiram, no entanto, atrizes que cantaram e nos encantaram mais pela beleza e pelos rebolados. Não estou falando de Carmen Miranda. Falo de Marylin Monroe.

Scarlett Johansson é atriz desde criancinha, como Drew Barrymore e Shirley Temple. Como Drew, cresceu. Menos escandalosamente, é certo. Alguém se lembra de Scarlett no belo filme O Encantador de Cavalos, dirigido e protagonizado por Robert Redford e Kristin-Scott Thomas? Quem faz a menina Grace tinha treze anos na época. Cresceu e fez Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Bob (Bill Murray) é um ator decadente, que é contratado para fazer um comercial para uma fábrica japonesa de bebidas. O blasé Murray conhece casualmente uma garota no bar do hotel – que é casada com um fotógrafo de celebridades – cujo nome é Charlotte. Advinhem o que acontece? A cena dela de calcinha vermelha vai ficar como um dos momentos antológicos, é certo que sem a majestade de um “Isso é o começo de uma grande amizade” proferido por Humphrey Bogart em Casablanca. Saindo um pouco do assunto, o título ‘Lost in Translation’ refere-se às dificuldades do diretor com o tradutor em transmitir corretamente as orientações ao ator americano. Refere-se também a algo que se “perde” nas diferenças geracionais entre uma jovem e um sessentão e entre a cultura ocidental e oriental. Mas, para quem entende um pouco de japonês, o verdadeiro “lost in translation” está nas legendas em português. Por exemplo, o diretor diz mais ou menos: “olhe, não é assim; você tem que fazer uma cara de quem está tomando o melhor whisky do mundo e não um que é vendido num posto de estrada.” Tradução: “Imagine que você está segurando um copo de whisky de primeira”. As frases, longas em japonês, viram uma breve frase no inglês e no português. Não acontece apenas com esse filme. Em qualquer filme japonês, seja de Kurosawa ou Kore-Eda, é assim. Para os que entendem um pouco de japonês é uma diversão cotejar as legendas com o que é falado. A impressão é a de que, ao contrário do que se imagina, a língua japonesa não é sintética.

Scarlett, quando foi dirigida por Sofia Coppola, não tinha 20 anos. Em razão desse filme tornou-se “A” estrela dos “tiozinhos”: quarentões, cinquentões e outros “ões” babaram por Johansson. Coincidência ou não, tornou-se uma das preferidas de um “tiozinho” de respeito: Woody Allen. Trabalhou em Match Point, Scoop e Vicky Cristina Barcelona. E protagonizou A Menina do Brinco de Pérola (Girl with a Pearl Earring), em que faz à perfeição o papel de modelo e serviçal do pintor Vermeer. Mas não dá para imaginar que não tenha se tornado objeto de desejo dos jovens e adolescentes também. Com um portfólio desses, tendo trabalhado com diretores do primeiro time – além de Allen, Redford e Sofia Coppola, Rob Reiner, Christopher Nolan e Brian DePalma – é surpreendente que tenha só 25 anos. Não é pouco. Não bastasse, Scarlett resolveu cantar.

Em 2008 lançou o CD Anywhere I Lay My Head, com composições de Tom Waits, participação de David Bowie em duas faixas e mesmo produtor dos discos de Clap Your Hands Say Yeah. Parece que recebeu uma acolhida morna pela crítica. A revista americana ‘Rolling Stone’ deu 2½ estrelas. Não conheço o disco. Agora, acabo de ganhar o CD Break Up, que Scarlett gravou com Pete Yorn, presente da amiga Vania Nalin, que me trouxe de Paris, quentinho: acabou de sair. Seria um pouco de “babação” dizer que é bom. Com estrelas, ou se é condescendente, ou inclemente. Como não ser uma dessas coisas ou ser ambos? O cd, na falta de melhor termo, é meio “molenga”. Falta um certo punch. Do que falar mal da voz pequena e afinada, mas com certo charme – estarei sugestionado por sua beleza, por aqueles lábios carnudos? –, ou da voz de Pete Yorn, que é bem “normal”, com direito a alguns “gemidos” parecidos aos de Bono Vox. Falta alguma coisa. A voz certinha de Johansson parece um pouco a de Kim Deal (ex-Pixies), que era da banda Breeders. Pra não dizer que não gostei do CD, podemos destacar a música Clean, apesar de a voz de Pete estar parecida demais com a de Damien Rice, autor de The Blowers Daughter, aquela música que (des)mereceu uma versão horrenda, cantada por Ana Carolina e Seu Jorge. Àqueles que não conhecem a original, corram para ouvi-la. É genial. I Don’t Want to Do é uma faixa dramática light, se isso existe. As balançadinhas, às vezes, parecem constrangedoramente primárias. Em Search Your Heart, parece uma sub-Blondie, se quisermos compará-la a mais uma bonitona.

La Johansson tem o aval de diretores de primeira, foi indicada várias vezes para premiações como o Globo de Ouro, é jovem e parece que deseja mostrar que não é “apenas mais um belo rosto nas telas”. Se ela quer nos convencer que é boa atriz, temos o tempo a favor. Um novo dado: terá de nos convencer que é boa cantora também. Quanto a concorrência – digo dos que estão vivos –, temos Jane Birkin, famosa pelo seu Je t’aime moi non plus, composição de seu marido à época, Serge Gainsbourg, nos anos 1970, que com perto de 60 anos lançou álbuns “simpáticos”. Sua filha Charlotte Gainsbourg, que não é lá muito bonita –herdou a magreza da mãe e a rusticidade do rosto do pai – tem provado ser boa atriz, e lançando-se cantora, tem recebido as graças da crítica. A concorrência não é fácil. Charlotte tem se mostrado mais inteligente em escolher parceiros. No disco de estreia, é nada menos que o brilhante Jarvis Cocker, ex-fundador da banda Pulp e, atualmente, em carreira-solo.

Como no mundo poucas coisas acontecem por acaso total, parece que o irmão de Pete é agente de Scarlett.

Veja e ouça Blackie’s Dead.



Texto publicado originalmente em janeiro de 2010